20- Classificação das articulações

Bianca Mirelle Ferreira de Souza¹ e Luana Beatriz de Moura Freitas¹

¹Acadêmico em Fisioterapia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e monitor no Programa de Monitoria da área V.

INTRODUÇÃO

As articulações são definidas como junções entre duas ou mais partes ósseas e o tecido que as conecta. Essas estruturas possibilitam que os ossos articulem entre si, gerando a capacidade de movimentação, ao mesmo tempo que promovem a estabilidade necessária para a região. A mobilidade articular é um elemento essencial para o ser humano exercer atividades funcionais diariamente de forma eficiente. Caso não existisse, os indivíduos seriam passíveis de lesões constantes ao tentarem realizar movimentos básicos, como levantar da cama e chutar uma bola de futebol, por exemplo.

Cada articulação presente no corpo humano é caracterizada em virtude dos seus componentes estruturais específicos, desde as articulações que possuem estrutura altamente fibrosa, pouco móveis e mais estáveis, até àquelas que têm cápsula articular e líquido sinovial, que permitem amplo grau de movimento. 

Fatores como o envelhecimento, sedentarismo, sobrecarga em atividades físicas e esforço repetitivo; estão diretamente relacionados ao desgaste ou trauma dos componentes articulares, o que ocasiona lesões, dores e, caso sejam reincidentes, podem acarretar diversas artropatias (doenças articulares tais como artrite e artrose).

Fig 1. Resumo da classificação das articulações. Fonte: autoria própria.

Como as articulações são classificadas?

A princípio, as articulações devem ser classificadas a partir do grau de movimento e pelo tipo de tecido interposto. Com relação ao grau de movimento, tem-se:

  • Sinartroses: são articulações imóveis que oferecem fundamentalmente estabilidade;
  • Anfiartroses: são as articulações com pouca mobilidade em que a maioria dos movimentos são limitados;
  • Diartroses: são articulações caracterizadas por serem amplamente móveis;

Se considerar-se o tipo de tecido interposto, tem-se:

  • Fibrosas

Nesse tipo de articulação os ossos são unidos através de um tecido conjuntivo fibroso que proporciona mobilidade bastante reduzida, por isso é do tipo sinartrose. As articulações fibrosas são ainda subdivididas em: suturas, sindesmoses e gonfoses.

Suturas

São estruturas encontradas entre os ossos do crânio. Muitas passam pelo processo de sinostose, no qual ocorre a fusão completa dos dois ossos devido a ossificação da zona fibrosa que os separam, porém, isso ocorre mais comumente na fase adulta. Quais são os tipos de suturas existentes?

Suturas planas: se dispõem de forma retilínea, pode-se citar como exemplo a sutura intermaxilar e a internasal.

Suturas escamosas: encontram-se com um encurvamento parcialmente grande. A sutura escamosa, que se encontra entre os ossos temporal e parietal, é um exemplo.

Suturas serreadas: estão sob a forma de linha denteada, como é o caso da sutura coronal.

Fig 2. Sutura internasal, sutura escamosa e sutura coronal, respectivamente. Adaptado de Kenhub.

Sindesmoses

As sindesmoses unem os ossos por meio de uma lâmina de tecido conjuntivo fibroso que pode ser um ligamento ou membrana interóssea. Ademais, possuem uma distância maior entre as faces articulares e mais tecido fibroso quando comparado às suturas. Um exemplo claro é a sindesmose radioulnar e a sindesmose tibiofibular.

Fig 3. Exemplo de uma articulação do tipo sindesmose. Adaptado de Sobotta (2000).

Gonfoses

São articulações fibrosas que permitem a fixação dos dentes nos alvéolos da maxila e mandíbula. Exemplo: articulação dentoalveolar.

Fig 4. Articulação dentoalveolar, caracterizada como uma gonfose. Adaptado de Grays (2010).
  • Cartilaginosas

Ocorrem quando os ossos são unidos através de cartilagem hialina ou fibrocartilagem, sendo capazes de realizar pouco movimento, por isso são classificadas como anfiartroses. Além disso, as articulações cartilaginosas subdividem-se em sincondroses e sínfises, que se diferenciam pelo tipo de cartilagem.

Sincondrose

A sincondrose também pode ser chamada de articulação cartilaginosa primária, na qual os ossos são unidos através de cartilagem hialina. Elas são consideradas articulações temporárias, tendo em vista de que em certo momento da vida, elas passam pelo processo de ossificação em que a cartilagem é substituída por osso. Ademais, a sincondrose contribui para o crescimento dos ossos em comprimento. Quando o indivíduo alcança o crescimento completo, os seus ossos longos, devido à existência da lâmina epifisial (que é um exemplo de sincondrose), passam pelo processo de ossificação, que promove a conversão da lâmina em osso, acarretando a fusão da epífise com a diáfise. Exemplos desse tipo de articulação são a sincondrose manúbrio-esternal e a sincondrose xifoesternal.

Fig 5. Manúbrio, esterno, processo xifóide e respectivas articulações classificadas como sincondroses. Adaptado de Sobotta (2000).

Sínfise

Também pode ser chamada de articulação cartilaginosa secundária, onde a união dos ossos ocorre através de um disco fibrocartilaginoso. Além disso, as sínfises são capazes de absorver choques mecânicos e impactos. Exemplos: discos intervertebrais que são encontrados entre os corpos vertebrais os quais garantem certa resistência e flexibilidade à coluna vertebral, e a sínfise púbica.

  • Sinoviais

É o tipo de articulação mais facilmente encontrada no corpo- principalmente nos membros- com elevado grau de mobilidade, por isso é classificada como diartrose. Possui uma estrutura anatômica mais complexa do que as fibrosas e cartilaginosas.

Qual a composição estrutural das articulações sinoviais?

Cartilagem articular

As superfícies articulares são cobertas por cartilagem articular hialina, e isso contribui para o baixo nível de atrito entre as peças ósseas.

Cápsula articular 

É formada por duas camadas: a membrana fibrosa (externa) e a membrana sinovial (interna). Geralmente, essa cápsula é constituída de inúmeros feixes de fibras de colágeno branco, podendo estar inserida continuamente em torno das extremidades ou periferia dos ossos que se articulam (essa inserção depende dos tipos de peças ósseas). Além disso, a membrana fibrosa da cápsula articular é considerada uma continuação espessa do periósteo (membrana que reveste externamente as peças ósseas) dos ossos da articulação.    

Membrana sinovial

É uma estrutura que reveste a cápsula articular, tendo como principal função a produção do líquido sinovial.   

Líquido sinovial

O líquido sinovial se localiza na cavidade articular, sendo um fluido transparente e viscoso, ajuda na nutrição e lubrificação das articulações, e contribui para o mínimo atrito possível entre as superfícies articulares.

Fig 7. Complexo articular sinovial e seus componentes. Adaptado de Grays (2010).

Ligamentos

Existem ligamentos acessórios que ajudam a manter a estabilidade articular em boa parte das articulações sinoviais. Eles podem ser subdivididos em: ligamentos extracapsulares, que localizam-se no exterior da cápsula articular, como é o caso dos ligamentos colaterais tibial e fibular da articulação do joelho, e ligamentos intracapsulares localizados no interior da cápsula, como exemplo pode-se citar os ligamentos cruzados anterior e posterior da articulação do joelho.

Meniscos e discos articulares

Muitas articulações sinoviais apresentam formações fibrocartilaginosas, chamadas de discos articulares e meniscos, que têm a função de aumentar a congruência entre as superfícies articulares, agindo como amortecedores contra choques mecânicos. Um exemplo disso são os meniscos medial e lateral encontrados no interior da articulação do joelho.

Fig 8. Articulação do joelho esquerdo, em destaque estão os ligamentos colateral tibial e fibular. Adaptado de Grays (2010).
Fig 9. Articulação do joelho esquerdo, em destaque estão os meniscos medial e lateral, bem como os ligamentos cruzados anterior e posterior. Adaptado de Grays (2010).

Bursas e bainhas sinoviais

São sacos fechados de revestimento sinovial que se encontram em áreas sujeitas a sofrerem atrito. Logo, localizam-se entre ossos, ligamentos, músculos e tendões, a fim de facilitar o deslizamento de uma estrutura sobre a outra. Ademais, existem as bainhas sinoviais dos tendões que são bolsas longitudinais que circundam essas estruturas, dessa forma contribuem no deslizamento destes ao passar por túneis fibrosos. 

Fig 10. Articulação do ombro, com destaque para a localização da bursa subacromial. Adaptado de Grays (2010).
Fig 11. Bainha sinovial comum localizada na mão. Adaptado de Grays (2010).

Lábio articular

É uma estrutura fibrocartilaginosa que se encontram nas articulações esferoides, sendo capazes de ajudar a aprofundar a cavidade articular e aumentar a área de contato entre a superfície esferoide e a cavidade. Exemplos disso são: lábio glenoidal encontrado na articulação do ombro e o lábio do acetábulo situado na articulação do quadril.

Fig 12. Articulação do ombro, com destaque para a localização do lábio glenoidal. Adaptado de Grays (2010).
Fig 13. Articulação do quadril, com destaque para a localização do lábio do acetábulo. Adaptado de Grays (2010).

Quais são os tipos de articulações sinoviais? 

Planas 

As articulações planas permitem movimentos de deslizamento na direção da superfície articular. Observam-se como exemplos as articulações acromioclavicular (entre o acrômio da escápula e a clavícula), intercarpais e intertarsais.

Fig 14. Exemplo de uma articulação plana. Adaptado de Brunnstrom (2014).

Gínglimo ou dobradiça

Na articulação do tipo gínglimo, a face convexa do osso se encaixa na face côncava de outro osso. É produzido um movimento angular de “abrir e fechar”, como o de uma porta, dessa forma, permite apenas flexão e extensão (movimentos que ocorrem no plano sagital, no eixo transversal). Assim, essas articulações são classificadas como uniaxiais. A articulação do cotovelo, talocrural e interfalângicas (entre as falanges dos dedos da mão e do pé) são exemplos de gínglimo.

Fig 15. Exemplo de uma articulação em dobradiça. Adaptado de Brunnstrom (2014).

Trocoide ou pivô

Em uma articulação trocoide, a face arredondada de um osso (em forma de pivô) se articula com um anel formado pelo outro osso. Ela permite apenas rotação em torno do seu próprio eixo, sendo, portanto, uniaxiais. Um exemplo é a articulação atlantoaxial, onde o atlas gira ao redor do dente do áxis, permitindo que a cabeça rotacione de um lado para o outro, expressando o “não”. Outro exemplo é a articulação radioulnar proximal.

Fig 16. Exemplo de uma articulação trocoide. Adaptado de Brunnstrom (2014).

Condilar 

Consiste na superfície esférica de um osso em contato com uma superfície côncava do outro osso. É biaxial, realizando movimentos de flexão, extensão, abdução e adução nos planos sagital e frontal. Exemplos de articulações condilares são as metacarpofalângicas nas mãos e as metatarsofalângicas nos pés.

Fig 17. Exemplo de uma articulação condilar. Adaptado de Brunnstrom (2014).

Elipsoide 

A face convexa relativamente plana de um osso se encaixa com uma superfície muito côncava de outro osso. As articulações elipsoides permitem flexão e extensão, além desvio ulnar e radial nos planos sagital e frontal, sendo assim, também são biaxiais. Um exemplo é a articulação radiocarpal do punho.

Fig 18. Exemplo de uma articulação elipsoide. Adaptado de Brunnstrom (2014).

Selar

Nesse tipo de articulação, a superfície de um osso tem o formato de uma sela e a face articular do outro osso se encaixa nela, tal qual um cavaleiro sentado em uma sela. Essa articulação realiza os movimentos de flexão, extensão, abdução, adução, oposição e reposição do polegar. Esses movimentos ocorrem ao redor de dois eixos perpendiculares, sendo assim, são articulações biaxiais que permitem movimento nos planos, sagital, frontal. A articulação carpometacarpal entre o trapézio e o I metacarpo, na base do polegar, é um exemplo de articulação selar.

Fig 19. Exemplo de uma articulação selar. Adaptado de Brunnstrom (2014).

Esferoide 

A face esferoide de um osso se articula com uma face côncava. São articulações triaxiais, ou seja, permitem movimento em torno dos três eixos e seus respectivos planos, são eles: flexão, extensão, abdução, adução, rotação medial e lateral. De acordo com Brunnstrom (2014), realiza a circundução: um movimento no qual o segmento que está em movimento percorre uma trajetória circular. Alguns exemplos são as articulações do ombro e do quadril.

Fig 20. Exemplo de uma articulação esferóide. Adaptado de Brunnstrom (2014).
Tabela 1. Resumo da classificação das articulações sinoviais quanto ao número de eixos. Fonte: autoria própria.

REFERÊNCIAS:

HOUGLUM, Peggy A.; BERTOTI, Dolores B.; Cinesiologia clínica de Brunnstrom. 6. ed. Barueri-SP: Manole, 2014.

Suturas cranianas. KENHUB. Disponível em: < https://www.kenhub.com/pt/library/anatomia/as-suturas-cranianas >. Acesso em 6 de junho de 2020.⁣

MOORE, Keith L.; Dalleu, Arthur F.; AGUR, Anne M.R.; Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

SOBOTTA: Sobotta J. Atlas de Anatomia Humana. 21 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000.

STANDRING, S. Gray’s Anatomia. 40ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

TORTORA, Gerard. J.; NIELSEN, Mark T.; Princípios de Anatomia Humana. 12. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.