A Tartaruga do Arcebispo

Rodson Ricardo do Nascimento

1. Uma tartaruga no palácio episcopal

O Palácio de Lambeth é a residência oficial dos Arcebispos de Cantuária. Aqueles que visitam o Palácio vão encontrar exposta o casco da famosa “Tartaruga de Laud”. A carapaça é na verdade o osso de uma tartaruga. Na verdade, trata-se da parte superior, enquanto a parte inferior é o plastrão. É algo semelhante à nossa caixa torácica em termos anatômicos. A tartaruga sobreviveu ao Bem-Aventurado William Laud (1553-1645), que foi executado injustamente em 1645 pelos puritanos.

2. A tartaruga de Laud

É impossível saber quando ou onde essa tartaruga saiu do ovo, mas por volta de 1628 parece ter chegado às mãos de Laud em julho daquele ano, quando ele tornou-se bispo de Londres e mudou-se para o Palácio Episcopal, levando consigo a tartaruga. Em cinco anos, ele foi promovido ao cargo mais importante – o Arcebispo de Canterbury. Quando Laud se tornou arcebispo de Canterbury em 1633, acredita-se que a tartaruga tenha sido embalada com o resto dos pertences de Laud para se mudar para o Palácio de Lambeth.

O Arcebispo Laud escreveu em seu diário em 1633, após a mudança desastrosa: “Minha carruagem, cavalos e homens afundaram no fundo do Tâmisa em uma balsa, que estava sobrecarregada”. Acredita-se que a tartaruga tenha sido resgatada e não parecia ter sofrido nenhum dano duradouro por ter mergulhado no Tâmisa.

Na verdade, a tartaruga sobreviveu em muito ao seu dono original, que foi decapitado em 1645 durante a guerra civil, mas em 1753, a tartaruga teria sido desenterrada “por uma aposta insignificante” por um jardineiro no forte inverno daquele ano, resultando em sua morte.

A tartaruga também sobreviveu a Laud, a política da guerra civil inglesa que levou à prisão do arcebispo na Torre de Londres e, finalmente, à sua decapitação em 1645. Ela sobreviveu durante a guerra civil, o Interregno, os reinados de Carlos II, Jaime II, Guilherme III, Rainha Ana e Jorge I e II, “mastigando repolhos silenciosamente no vasto jardim do palácio”, escreve Caroline Grigson em seu livro “A tartaruga do Arcebispo”. Enfim, a tartaruga viveu pelo menos 125 anos e se, como sugerem alguns dos biógrafos de Laud, ela estava na casa dos 60 anos quando ele a colocara em suas mãos em 1628, então poderia facilmente estar perto dos 200.

3. O simbolismo da tartaruga

As tartarugas são animais fantásticos. Elas possuem carapaças únicas e robustas, proporcionando-lhes proteção natural. São também seres de mundos diferentes: a água e a terra. Por isso seu simbolismo está relacionada à sobrevivência, estabilidade, longevidade e proteção, tendo sua concha protetora disposta nas costas. Em muitas culturas (como a chinesa), é também um símbolo da sabedoria antiga. Isso explica porque Laud a escolheu como seu animal de estimação. Ele sabia que estava criando algo que sobreviveria a sua existência física.

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