Colombo: O primeiro Anatomista a descrever a circulação pulmonar ou o protagonista de mais uma injustiça anatômica?

Introdução

Matteo Realdo Colombo nasceu em 1516 na cidade de Cremona, na Itália. Iniciou seus estudos em Milão, em Artes Liberais – que era requisito necessário para a obtenção do grau de médico. Após, passou sete anos estudando cirurgia em Veneza sob a orientação de um respeitado e competente cirurgião, Giovanni Antonio Lonigo 1. O jovem anatomista foi atraído para a Universidade de Pádua pela sua fama e prestígio em estudos anatômicos e clínicos. Colombo destacou-se entre os outros estudante por apresentar um vasto conhecimento anatômico e por ser um habilidoso cirurgião 2. Assim, aproximou-se do grande anatomista Andreas Vesalius, tendo sido escolhido seu assistente. Foi indicado para substituir seu mestre por um curto período, quando Andreas Vesalius realizou uma viagem a fim de supervisionar a impressão de sua obra prima De Humani Corporis Fabrica 1. Por sua proximidade com Vesalius, Colombo incorporou a maneira que o mestre trabalhava, e utilizou sistematicamente cadáveres para fazer suas observações e demonstrá-las aos estudantes. Ao mesmo tempo, também começou a contestar alguns conceitos e estruturas anatômicas descritas anteriormente por Galeno (131- 201).

Sob a influência dos métodos de estudo do Vesalius, Colombo iniciou os trabalhos anatômicos para a preparação do seu livro – De re anatômic. Esta obra teve início quando ainda estudava cirurgia, e se tratava de um livro-texto com poucas figuras, mas que já avançava em alguns conhecimentos anatômicos. No entanto, apresentava pouco progresso se comparado ao contemporâneo De Humani Corporis Fabrica 3. Talvez por sua linguagem simples e pelo alto grau de detalhamentos das estruturas anatômicas, De re anatomica tornou-se muito popular e influente na época, ao ponto de muitos anatomistas e médicos preferirem essa obra à de Vesalius 4.

Por ter sido discípulo de Vesalius, Colombo também não era adepto do Galenismo e, para ampliar seus conhecimentos anatômicos, realizou muitas autópsias, dissecações e observações de vivissecções. Vesalius tinha uma enorme admiração e afeição por seu discípulo, tanto que fez uma homenagem na primeira edição da sua obra prima:

“ao meu amigo Colombo, habilidoso professor, um grande estudioso da anatomia…”

Essa amizade terminou quando Colombo, no capítulo de seu livro que referenciava a laringe, o olho e a língua; acusou o seu mestre de ter descrito algumas estruturas anatômicas baseadas na dissecção de bovinos e não em humanos 1,3. Após essas acusações, Andreas Vesalius respondeu:

“Colombo chegou com uma formação anatômica incompleta e aprendeu muito sobre anatomia por estar me observando durante meus trabalhos de dissecação… e durante minha ausência em Pádua, ele dissecava para tentar encontrar estruturas que fui incapaz de demonstrar…” 4,5

Acabava assim uma grande amizade entre mestre e discípulo, e na edição de 1555 de De Humani Corporis Fabrica a homenagem à Colombo foi retirada.

Com a saída de Vesalius da Universidade de Pádua, Matteo Colombo assumiu a cadeira de cirurgia de 1544 a 1547. Logo depois, foi para Pisa e, finalmente, chegou ao seu objetivo que era a cidade de Roma. Nessa época, os melhores professores estavam nas grandes cidades, apesar de a Anatomia Pádua ser a que possuía maior destaque. Em Roma, enriqueceu seus conhecimentos pois realizava muitas dissecações em cadáveres e tornou-se médico particular e amigo de Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475- 1564). Colombo e Michelangelo tinham algo em comum, a paixão pela Anatomia Humana. Dessa maneira, Colombo doava cadáveres para Michelangelo para que o famoso artista aprofundasse seus conhecimentos em Anatomia através das dissecações 2. Como Colombo sonhava em publicar outro livro, viu na amizade com Michelangelo a grande oportunidade para fazer o melhor livro de Anatomia de todos os tempos. Infelizmente, Michelangelo rejeitou o convite pois alegara que estava velho, debilitado, cansado e desestimulado por ter perdido todas as suas anotações sobre Anatomia, tendo por isso abandonado todos seus projetos e vindo a falecer em 1564. Com sua morte, Colombo ficou sem a magnífica contribuição de um dos maiores artistas da história 2. Se essa parceria tivesse sido concretizada, tido provavelmente De re anatomica similar apelo a De Humani Corporis Fabrica.

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Afresco na Capela Sistina – Michelangelo

Legado anatômico

Colombo era contundente e prodigioso na anatomia topográfica. Fez descrições admiráveis sobre o mediastino, a pleura e o peritônio; e suas descrições não deixam a desejar nem mesmo se comparadas ao pai da anatomia moderna – Andrea Vesalius 3. Introduziu os termos (i) pelve – do latim pélvis, significa bacia ou caldeirão e (ii) bregma – do grego brechein, significa amolecer, umedecer 6.

A descrição anatômica mais conhecida de Mateo Colombo foi a circulação pulmonar, porém há uma grande polêmica envolvendo esse tema. Não se sabe ao certo quem realmente a descobriu, se foi Colombo ou Ibn al-Nafis ou  Miguel Servet.

Circulação Pulmonar

A circulação pulmonar até então tinha a seguinte concepção: no lado direito do coração circularia sangue impuro advindo do fígado e que iria para os pulmões purificar-se para então retornar ao ventrículo direito.  No lado esquerdo do coração haveria apenas ar o qual viria de uma ligação direta dos pulmões com o coração. Como de um lado haveria sangue e do outro ar, acreditava-se que o sangue fluiria através de poros diminutos ou invisíveis presentes no septo interventricular do lado direito para o esquerdo, e tal “mistura” teria como conseqüência a formação do calor. Este seria então distribuído para todo o corpo, transformando o espírito natural em vital 7.

A primeira descrição sobre o assunto fora feita por Ibn al-Nafis de Damasco (1210- 1290) 8, tendo descrito que o sangue que se encontrava na cavidade (ventrículo) direita do coração precisaria chegar na cavidade esquerda. Entretanto, não haveria nenhuma comunicação direta entre as duas cavidades e o septo que as separa seria muito espesso e não possuiria poros diminutos como muitos tratados abordavam, e também não existiriam poros invisíveis como defendia  Galeno (150- 200 d.C.). Na verdade, o sangue sairia da cavidade direita por meio da veia arteriosa (artéria pulmonar) para assim alcançar os pulmões, onde o sangue se espalharia e misturar-se-ia com o ar (não se conhecia ainda os capilares). A partir disso, o sangue deixaria os pulmões através da artéria venosa (veia pulmonar) para finalmente chegar na cavidade esquerda 9.

A segunda descrição da circulação pulmonar foi idealizada pelo teólogo, anatomista Miguel Servet (1511- 1553) que a descreveu praticamente da mesma forma que Ibn as-Nafis, porém acrescentou que o sangue só seria purificado nos pulmões durante a inspiração, enquanto que na expiração as impurezas seriam exaladas pelas vias aeríferas. Sua brilhante ideia foi descrever uma nova “espécie de artéria” semelhante a um fio de cabelo (capillaribus) que se iniciava nas veias e terminava nas próprias artérias 10. No entanto, não deu nenhum detalhe dessa nova estrutura devido à ausência de instrumentos para tal demonstração. O mérito geral de Miguel Servet é contestado devido sua obra Christianismi Restitutio, a qual contestava o batismo infantil e a trindade. Denunciado como herege por Calvino, somente restaram três exemplares, já que os demais foram queimados juntamente consigo na fogueira da Inquisição. Tal execução foi motivada por dois fatos: primeiro, ele contestou as teorias do Galeno – em outro artigo no site há a descrição da circulação sanguínea – e, segundo, ainda traz um conteúdo teológico muito forte, além de se negar a abrir mão de suas teorias 7,10.

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Circulação pulmonar

A descrição da circulação pulmonar de Colombo ocorreu praticamente na mesma época. Existiram relatos de que ele descobriu a circulação pulmonar de forma independente, pois os escritos de Ibn al-Nafis não haviam sido impressos; e existiram poucas cópias do livro de Servet que era praticamente um livro teológico 11. A descrição da circulação pulmonar foi exatamente da mesma maneira como descrita pelos antecessores, porém ela foi considerada uma das melhores descrições até a publicação da obra de William Harvey (1578- 1657) em 1628 12. Colombo ainda contestava o fato de que as veias arteriosas (artérias pulmonares) seriam destinadas exclusivamente para a nutrição dos tecidos pulmonares, como era estabelecido pelos antigos anatomistas; e não concordava com a ideia de que um vaso tão calibroso servisse apenas para tal função 13. Porém, afirmava, assim como Galeno, que o sangue era formado no fígado, a partir dos alimentos, e depois seguiria para o coração 3,5.

Eterno discípulo?

Colombo pode ser considerado um anatomista habilidoso, inteligente e ambicioso que queria alcançar o mesmo prestígio e fama do seu antigo mestre. No entanto, não conseguiu tal feito e ficou conhecido como o discípulo de Vesalius e anatomista que “descobriu” a circulação pulmonar.

Até hoje não se sabe ao certo qual anatomista descreveu inicialnente a circulação pulmonar, apesar de que cronologicamente supõe-se que essa honra deva ser atribuída a Avicena (Ibn Sina). No entanto, Colombo deixou diversos argumentos para que os demais colegas pudessem evidenciar tema de tamanho interesse para a história da Anatomia.

 

Dr. Jodonai Barbosa da Silva

Professor de Anatomia da Universidade Federal do Piauí, Campus Senador Helvídio Nunes de Barros. E-mail para contato: jodonai@ufpi.edu.br

Referências

  1. FEY, W. B. Realdo Colombo. Cardiol., 25: 135- 37, 2002.
  2. EKOYNAN, G; DE SANTO, N. G. Realdo Colombo (1516- 1559): A reappraisal. Am J Nephrol., 34: 508- 528, 1997.
  3. SINGER, C. Uma breve história da anatomia e fisiologia desde os gregos até Harvey. Tradução: Marina Rachel de Araújo. Campinas, São Paulo: Editora da UNICAMP,
  4. MOES, R. J; O’MALLEY, C. D. Realdo Colombo ‘on tohse things rarely found in anatomy’ – an annotated translation from De Re anatomica (1559). Bull Hist Med., 34; 508- 528, 1960.
  5. COPPOLA, E. D. The discovery of the pulmonary circulation: A new approach. Bull Hist Med., 21: 44- 77; (a) p. 65, 1957.
  6. FERNANDES, GJM. Eponímia: glossário de termos epônimos em Anatomia; Etimologia: dicionário etimológico da nomenclatura anatômica. São Paulo: Plêiade, 1999.
  7. PORTO, C. C.; RASSI, S; REZENDE, J. M; JARDIM, P. C. B. V. O sistema circulatórrio de Galeno a Rigatto. Arq Bras Cardio., 56 (1); 43- 50, 1991.
  8. TEMKIN, O. Was Servetus influenced by Ibn an-Nafis? Bull Hist Med., 8: 731- 4, 1940.
  9. WEST, J. B. Ibn al-Nafis, the pulmonary circulation, and Islamic Golden Age. J Appl Physiol., 105: 1877- 80, 2008.
  10. O’MALLEY, C. D. Michael Servetus – A translation of his non-theological writings. Philadelphia: American Philosophical Society. 1953.
  11. STEFANADIS, C; KARAMANOU, M; ANDROUTSOS, G. Michael Servetus (1511- 1553) and the Discovery of pulmonary circulation. Hellenic J Cardiol., 50: 373- 78, 2009.
  12. WILSON, L. G. The problem of the discovery of the pulmonary circulation. J Hist Med Allied Sci., 17: 229- 44, 1962.
  13. LAMBERT, S. W. A reading from Vesalius and the physiology of Vesalius. Bull NY Acad Med., 12: 345- 415 1936.
  14. HARVEY, W. Exercitatio Anatomica De Motu Cordis et Sanguinis in Animalibus – Being a fascsimile of the 1628 Francofurti Edition Together with the Keynes English Translation. Birmingham: The Classics of Cardiology Library,
  15. PORTO, M. A. A Circulação do sangue, ou o movimento do conceito de movimento. História, Ciência, saúde – Manquinhos, 1 (1): 43- 50, 1994.
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