Como desenvolvemos o “reflexo” para dirigir?

Na atualidade, com a necessidade de se agilizar todas as obrigações e informações, aprender a dirigir tornou-se uma verdadeira obrigação para muitos. Ao se atingir 18 anos ou mais, inicia-se uma jornada para retirar a carteira de motorista e, nesse período, diversas conexões neurais são formadas para atender as demandas de um novo aprendizado.

É notável que motoristas mais experientes tem muito mais facilidade em dirigir do que novatos e tal fato deve-se ao processo de automatismo da aprendizagem. Quanto mais se pratica determinada ação, mais ela se torna automática, involuntária e fácil de ser realizada. Na aprendizagem, existem dois aspectos principais, o neurológico e o psicológico. O neurológico aborda todos os sentidos humanos (visão, audição, etc) e o aparelho locomotor. Já o psicológico abrange as emoções e a cognição. Esses dois aspectos trazem informações aos indivíduos e elas vão sendo armazenadas na memória de diferentes formas. E o modo como essas informações vão se codificar em memórias é um dos principais pontos no processo de aprendizagem.

Na formação do condutor, é necessário aprender leis de trânsito, decorar as placas e demais sinais, mas principalmente, aprender a conduzir o carro de forma mais eficiente em diferentes situações e ambientes. Inicialmente, dirigir é um ato laborioso, no qual é necessário passar etapa por etapa para não codificar erros e, mesmo assim, podem ocorrer falhas em alguns momentos. Isso ocorre por se tratar de informação nova, ou seja, novas conexões sinápticas precisam ser realizadas para que a atividade possa ser realizada, constituindo o processo de aquisição. À medida que as aulas de direção ocorrem, o sistema nervoso do condutor começa a criar novos esquemas para aquela atividade, diminuindo o número de erros e criando sequências lógicas, constituindo o processo de retenção. Quando já se possui certa prática, as ações começam a ser mais involuntárias e há consolidação de novas conexões sinápticas, além de haver o processo de transferência, no qual o motorista conseguirá dirigir em outros locais além da autoescola (Fig 1).

Fig 1: Processo de aprendizagem.

Nesse processo, a memória é fundamental. Existem dois tipos principais de memória no processo de condução: a explícita (declarativa) e a implícita (não-declarativa). A implícita trata-se daquela que podemos falar e, geralmente, falamos em voz alta para lembrar as etapas, sendo processada no hipocampo. É muito comum no início da aprendizagem, falar em voz alta as etapas para não se esquecer. Já a implícita, é a principal no automatismo, pois envolve repetição constante para que seja consolidada. Também é armazenada no hipocampo, porém envolve os núcleos da base e circuitos associados.

E para que esse processo de automatismo ocorra, diversas estruturas anatômicas atuam dando suporte direto. Os órgãos do sentido captam informações as quais são enviadas ao sistema nervoso central, como o som de buzinas, a imagem de uma faixa de pedestre e uma placa de trânsito e depois são codificadas, gerando respostas motoras, como acelerar o carro, passar a marcha ou parar. À medida que essas ações se repetem no dia a dia, vão fortalecendo as conexões sinápticas, fazendo com que elas se tornem mais rápido e facilmente acessíveis. Estruturas como a oliva bulbar, o cerebrocerebelo e as áreas corticais atuam nesse processo refinando as ações motoras, tornando-as mais eficientes e com menor gasto energético. E quanto mais se pratica essa ação, mais memória motora é gerada nessas estruturas, tornando o ato cada vez mais involuntário e eficaz (Fig 2).

Fig 2: Processo de automatismo do sistema nervoso.

Além disso, estruturas como o giro parahipocampal e o córtex cingular posterior também são utilizados. Ativação do giro parahipocampal ocorre durante a visualização de cenários novos, especialmente os complexos, como ruas ou paisagens, já do córtex cingular está relacionado com a memória topográfica: capacidade de orientação no espaço e memorização de caminhos, cenários, mapas, podendo ser novos ou já conhecido. Por isso, é muito mais fácil dirigir por locais conhecidos, as imagens topográficas já estão criadas e não se necessita de novos processos para criar novas informações.

Com isso, percebe-se que o automatismo para dirigir é um processo natural decorrente da prática e envolve diversos fatores neurais e psicológicos. A aprendizagem inicia-se semelhantemente a qualquer gesto motor, com erros e com demanda de muita atenção. No entanto, à medida que se repetem os mesmos movimentos, a atividade neural passa a ser consolidada e o processo de dirigir se torna automático, involuntário. Dessa forma, a prática deve ser sempre incentivada, pois ela resulta cada vez mais em ações refinadas e de baixo gasto energético.

Dr. Ingrid Martins de França – Fisioterapeuta

Referências:

MACHADO, A. B. M.; HAERTEL, L. M. Neuroanatomia funcional. 3.ed. São Paulo: Atheneu, 2013

LOMBROSO, P. Aprendizado e memória. Rev Bras Pisquiatr 2004;26(3):207-10.

SHUNMWAY-COOK A, WOOLLACOTT MH. Controle motor: teorias e práticas. 2ed. Barueri: Manole, 2003. Capítulos 1-3 e 4.

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