Santsas e o ritual das cabeças encolhidas

O mundo sempre esteve marcado pelo caos e desordem. Guerra, fome, mutilações, canibalismo, infanticídio e sacrifícios diversos fizeram (e ainda fazem) parte de distintas civilizações na história. Nesse sentido, é interessante observar que o mito do “bom selvagem” de Jean-Jacques Rosseau (1712-1778) continua a encantar os incautos ao hipotetizar que o homem vivenciaria um estado de equilíbrio e pureza no meio selvagem; e seria essa malfadada sociedade (ocidental) que o conduziria às guerras e aos conflitos de poder.

Pelo menos para a tribo Shuar, do alto da região amazônica e que hoje representaria partes do Equador e Peru, a falta de um ordenamento moral superior proporcionou excrescências tais como a miniaturização da cabeça de seus inimigos mortos. Estas cabeças ou santsas eram ostentadas como verdadeiros trofeus pelos guerreiros jívaros e, segundo Hugh Aldersey-Williams, simbolizaria a aquisição de um corpo pela tribo ao mesmo tempo que pacificaria a alma do derrotado.

O ritual de preparo da santsa durava cerca de 6 dias e era iniciado retirando-se cuidadosamente a pele do crânio, a partir de uma incisão superior na região posterior da cabeça. O crânio era então descartado juntamente com o encéfalo e demais partes moles como músculos e tecido adiposo. A pele era então fervida por até 30 minutos com substâncias que preservavam completamente os cabelos e, nesse processo, poderia encolher até a metade de seu tamanho original. Após cura, o invólucro formado pela pele era preenchido por seixos quentes e defumado a fim de secar o tegumento e preservar sua morfologia. Emborcada pelo avesso, resquícios de tecidos moles eram novamente retirados a fim de se evitar maus odores. Tendo como base a incisão inicial, toda a pele era costurada assim como as pálpebras, enquanto sementes vermelhas preenchiam o espaço dos olhos. A seguir, a pele deveria ser tingida com cinzas e decorada por grãos diversos com o intuito de abrandar a alma do infeliz. Finalmente, três pinos de madeira fechavam a boca e a Santsa era então suspensa pelos cabelos.

O “bom selvagem” poderia então partir para uma nova peça de sua coleção…

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