O dedo médio como ofensa: homenagem a Gilmar Mendes

Bento J Abreu

“Pois bem, está na hora de marcar o ritmo com este dedo”, dizia Estrepsíades a Sócrates, enquanto mostrava o seu dedo médio na peça As Nuvens, do grego Aristófanes, em 432 a.C. A seguir, o ator completava: “É claro que, quando eu era jovem, costumava marcar o ritmo com este aqui”, enquanto sustentava seu pênis.

Não é fácil de se estender o dedo médio. Diferentemente do indicador e mínimo, não possui um músculo que isoladamente o estenda sem interferência dos demais. Então por que chegou a tal fama? Bem, a conotação sexual do dedo médio é evidente, talvez devido sua forma fálica e por ter maior comprimento que os demais dedos. Segundo Desmond Morris, o dedo médio representaria o pênis, ao passo que os demais dedos flexionados ao lado fariam alusão aos testículos.

O legado grego teria chegado à Roma como o digitus impudicus (dedo da impudência). Consta que o famigerado imperador Calígula obrigava seus súditos a não beijar a mão em si, mas especificamente seu III dedo como forma de humilhação. É verdade que o dedo médio também era conhecido no império como digitus medicus, já que os médicos da época costumavam misturar os remédios com esse dedo. No entanto, foi o gesto ofensivo que se popularizou. Tribos bárbaras germânicas mostravam o III dedo para os romanos como ofensa, segundo o historiador Tácito.

Relatos controversos dizem que o gesto tenha sido popularizado entre os britânicos na famosa batalha de Azincourt, durante a Guerra dos Cem Anos, quando o exército de Henrique V, apesar de menor número, venceu a batalha contra a imponente cavalaria francesa. Isto ocorreu em parte devido ao uso de uma estratégia brilhante e pelo uso do arco longo pelos ingleses. Lançando flechas à distância num terreno pantanoso, os arqueiros britânicos utilizavam os dedos indicador e médio para guiar a trajetória da flecha. Acredita-se que os franceses, desconcertados, prometiam decepar os dedos dos rivais para que não pudessem retornar ao combate, enquanto os arqueiros não capturados mostravam o dedo médio em riste.

De gosto duvidoso ou não, apontar o dedo médio representa uma ferramenta de expressão não-verbal corriqueiramente observada na cultura moderna como forma de ofensa, ou mesmo de protesto.

Após seguidas ações que visam solapar a operação Lava-Jato e incrementar a impunidade, o indefectível ministro Gilmar Mendes será “homenageado” pela população no dia 17 de novembro. É hora do brasileiro estender sua articulação metacarpofalângica bem como as interfalângicas proximal e distal do dedo médio para demonstrar todo o repúdio e ojeriza que tem desse indivíduo…

#dia17impeachmentgilmarmendes #foragilmarmendes

Referência:

Hugh Aldersey-Williams. Anatomias. Uma história cultural do corpo humano. 2a edição. Editora Record, 2018.

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