Epidemiologia das desordens musculoesqueléticas nas academias de ginástica

Bento J Abreu

Como é sabido, o treinamento de força é utilizado nas academias de ginástica por meio do uso de anilhas, pesos ou máquinas como resistência. A popularidade deste tipo de treinamento aumentou bastante na década passada e, estimativas apontaram que, entre 2006 e 2008, cerca de 45 milhões de indivíduos praticaram exercícios de resistência típicos da musculação somente nos Estados Unidos (FLECK E KRAEMER, 2004; REEVES ET AL., 1998).

Com o aumento do número de praticantes da musculação, aumenta-se também o número de lesões relacionadas ao levantamento de peso. Infelizmente, não possuímos dados acerca da população brasileira e, portanto, observaremos dados de outros países que têm sistematicamente realizado levantamentos dessa natureza.

Comparando-se os anos de 1990 e 2007, houve um aumento de 48% no número dessas lesões nos Estados Unidos (KERR ET AL., 2010), um aumento bem maior se comparado aos 30% de aumento entre os anos de 1978 e 1998 (JONES ET AL., 2000). Na verdade, estudos epidemiológicos revelaram que as lesões ocorrem predominantemente em homens (POWELL ET AL., 1998; JONES ET AL., 2000), adolescentes (RISSER, 1991; JONES ET AL., 2000) e idosos (JONES ET AL., 2000).

Ainda, os estudos revelaram que as lesões acometeram principalmente a coluna lombar e os ombros, e geralmente consistiam em distensões (ZEMPER, 1990; RISSER ET AL., 1990).

Talvez o estudo de Kerr e colaboradores (2010) tenha melhor apresentado a epidemiologia das lesões relacionadas ao levantamento de peso na população em geral. Neste estudo, os autores abordaram 25.335 lesões relacionadas a esse tipo de treinamento, as quais foram coletadas em departamentos de emergência norte-americanos entre os anos de 1990-2007. A idade média dos indivíduos que apresentaram lesão foi de 27 anos e, 82,3% dos lesados eram homens. Segundo os autores, a grande proporção de lesões ligada ao gênero ocorre devido à população prevalente nas academais, majoritariamente homens. Por outro lado, o aumento na proporção de lesões em mulheres nos últimos anos reflete cada vez mais uma maior participação crescente em academias de ginástica.

A faixa etária que apresentou a maior quantidade de lesões foi a dos adolescentes (13-18 anos), seguida por jovens entre 19-24 anos (KERR ET AL., 2010). De acordo com os pesquisadores, estes achados podem refletir a grande quantidade de atividades físicas e desportivas praticadas por adolescentes nas escolas ou na comunidade, podendo ser um fator de risco para outras lesões. Como tais indivíduos possuem mais lesões nas mãos e pés, o próprio autoconhecimento do corpo e o desenvolvimento muscular podem ter relação com as lesões durante o manuseio dos pesos.

No mesmo estudo (KERR ET AL., 2010), os indivíduos com idade superior a 55 anos sustentaram maior proporção de lesões advindas de sobrecarga muscular, principalmente no levantamento/puxamento de pesos, se comparado a indivíduos mais novos. Se por um lado a grande maioria das lesões envolveu o manuseio de pesos livres (90,4%) na população em geral, os idosos mantiveram uma maior proporção de lesões em máquinas se comparado aos indivíduos com idades menores.

As regiões corporais mais comumente lesadas foram o tronco superior (25,3%), seguido pelo tronco inferior (19,7%) e mãos (18,6%). Se os homens apresentaram uma maior proporção de lesões no tronco superior e inferior, as mulheres apresentaram uma maior quantidade de lesões nos pés. As mulheres apresentaram uma maior quantidade de lesões envolvendo tecidos moles e fraturas/deslocamentos se comparado aos homens, os quais apresentaram mais distensões e lacerações.

Interessante que, por se tratar de uma coleta de dados num serviço de emergência, as lesões envolviam geralmente acidentes graves e traumas agudos como: queda do peso na pessoa (65,5%), esmagamento de uma parte corporal entre os pesos (10,4%) e contusão direta (9,8%), entre outras. Assim, os resultados devem ser observados com parcimônia, pois desordens menos graves, crônicas e que não envolveram associação direta com o treinamento de peso não foram computadas. Foram excluídas, portanto, uma infinidade de doenças bastante corriqueiras nos praticantes de academia tais como tendinites e tendinoses, desequilíbrios musculares, dores musculares etc.

Referências:

FLECK S, KRAEMER W. Designing Resistance Training Programs. Champaign, IL: Human Kinetics; 2004.

JONES C, CHRISTENSEN C, YOUNG M. Weight training injury trends: a 20-year study. Physician Sportsmed. 2000;28(7):61-66.

POWELL KE, HEATH GW, KRESNOW MJ, SACKS JJ, BRANCHE CM. Injury rates from walking, gardening, weightlifting, outdoor bicycling, and aerobics. Med Sci Sports Exerc. 1998;30(8):1246-1249.

REEVES R, LASKOWSKI E, SMITH J. Weight training injuries: part 1: diagnosing and managing acute conditions. Physician Sportsmed. 1998;26(2):67-83.

RISSER WL. Weight-training injuries in children and adolescents. Am Fam Physician. 1991;44:2104-2108.

ZEMPER E. Four-year study of weightroom injuries in a national sample of college football teams. Nat Strength Condition Assoc J. 1990;12(3):32-34.

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