A história de São Bartolomeu e seu martírio por esfolamento

Antônio Nunes Oliveira

Filipe vai ter com Natanael e lhe diz: ‘É Jesus, o filho de José de Nazaré’”. Depois de externar sua sinceridade e aproximar-se do Cristo, Bartolomeu ouviu dos lábios do Mestre a sua principal característica: “Eis um verdadeiro israelita no qual não há fingimento” (Jo 1,47).

A partir desse dia, Bartolomeu, mencionado como Natanael (Origem do Hebraico com a junção de duas palavras: Netan’el = nathá + El, “ele deu” e “Deus”, significando assim, “Deus deu”, “dom de Deus” ou “presente de Deus”.) tornou-se discípulo de Jesus Cristo. A Igreja entende a partir das Sagradas Escrituras que Bartolomeu foi escolhido por Cristo a partir de um momento “chave” da sua vida em que Cristo o observou e só Ele e Bartolomeu sabem o que passou em seu coração.

Quando Cristo o chamou, logo após fazer o elogio do Israelita Verdadeiro, Bartolomeu o responde com profundo respeito e admiração: “Como me conheces?” (Jo 1, 48a); enquanto Jesus o responde: “Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira“(Jo 1, 48b). Bartolomeu então, sente-se comovido e tocado pelas palavras de Jesus. O texto nos leva a perceber os sentimentos de Bartolomeu, que se sentiu compreendido por Deus e compreende que este Homem que o chama, sabe tudo acerca da sua vida, Ele sabe, conhece, e ensina o caminho da vida, a este Homem pode realmente confiar todas as suas preocupações e toda sua vida; e assim responde com uma confissão de fé sincera e límpida, dizendo: “Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel” (Jo 1, 49).

Nos Evangelhos sinópticos, cita-se que Bartolomeu ou Bar-Talmay (filho de Talmay em Aramaico) nasceu em Caná da Galiléia, a pequena aldeia onde Jesus transformou a água em vinho, tendo vivenciado uma infância e adolescência comum aos homens de sua época.

Bartolomeu conviveu com Jesus, tendo presenciado milagres e vivido conforme a sua profissão de fé. Sua vocação é apresentada de forma concreta, real e viva no testemunho da fé e atividade apostólica. Bartolomeu não nos ensina apenas uma profissão de fé em Cristo, mas sua assinatura é clara: todo nosso conhecimento e ciência acerca de Jesus é vã se não a experimentamos; ou seja, é adentrar nas águas profundas da nossa Fé, é viver o autentico Evangelho em nossas vidas.

Após a ressurreição de Cristo, não há muitos relatos detalhando sua atividade apostólica. Em 2006, o Papa Emérito Bento XVI, na Audiência Geral do dia 04 de Outubro, abordou sobre São Bartolomeu:

“Da sucessiva atividade apostólica de Bartolomeu-Natanael não temos notícias claras. Segundo uma informação referida pelo historiador Eusébio do século IV, um certo Panteno teria encontrado até na Índia os sinais de uma presença de Bartolomeu (cf. Hist. eccl., V 10,3). Na tradição posterior, a partir da Idade Média, impôs-se a narração da sua morte por esfolamento, que se tornou muito popular. Pense-se na conhecidíssima cena do Juízo Universal na Capela Sistina, na qual Michelangelo pintou São Bartolomeu que segura com a mão esquerda a sua pele, sobre a qual o artista deixou o seu auto-retrato. As suas relíquias são veneradas aqui em Roma na Igreja a ele dedicada na Ilha Tiberina, aonde teriam sido levadas pelo Imperador alemão Otto III no ano de 983.

Para concluir, podemos dizer que a figura de São Bartolomeu, mesmo sendo escassas as informações acerca dele, permanece contudo diante de nós para nos dizer que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada também sem cumprir obras sensacionais. Extraordinário é e permanece o próprio Jesus, ao qual cada um de nós está chamado a consagrar a própria vida e a própria morte.”

Cena do Juízo Universal, Capela Sistina. Autor: Michelangelo. São Bartolomeu que segura
com a mão esquerda a sua pele resultado de seu martírio, esfolado vivo.

O martírio do apóstolo ocorreu na cidade de Albanópolis, hoje Derbent, na região russa do Daguestão, às margens do mar Cáucaso. A tradição conta que ele teria sido morto por ordem do governador local, o qual não aceitava a pregação e a conversão dos nativos ao cristianismo. Sua morte por esfolamento é considerado o ápice de sua fé, sendo assim, o seu martírio vermelho.

O esfolamento é um método de tortura relatado desde 800 a.C no norte da África. A vítima era preparada para que o tecido epitelial se soltasse mais facilmente, seja por meio de panos quentes sobre a pele ou por deixar a vítima por horas abaixo do sol quente e escaldante, como faziam os Astecas. Métodos mais extremos como o de cozinhar a pessoa em um caldeirão com água fervente e/ou óleo, sem deixá-la padecer, também já foi relatado durante a Idade Média.

A pele era demarcada por meio de uma faca afiada, pois se dizia que a dor era amenizada. Conta-se que os turcos seljúcidas, mestres na arte da esfolação, preferiam tal técnica pois a tortura poderia perdurar por mais tempo. Faziam cortes longos e horizontais, preferindo retirar pedaços grandes de pele.

Dessa forma, a vítima perdia uma grande quantidade de sangue, sentia muito frio pois, a pele também participa da regulação da temperatura, sendo nossa primeira defesa e parte do sistema regulador da homeostase (equilíbrio dos sistemas e das funções corporais) em uma linguagem fisiológica. Por isso a hipotermia era uma das causas das mortes decorrentes de esfolamento.

Algo indubitável que acontecia era a perda da consciência e choque. Como os algozes faziam de tudo para manter a vítima viva do início ao final, mantinham as vítimas despertas por meio de tormentos físicos (socos, queimaduras, colocar a pessoa de cabeça para baixo, etc). Choque hipovolêmico e desmaio não tardaria em tal situação. Alguns relatos mencionam que a maioria das vítimas por esfolamento perdiam a consciência antes que a pele do torso fosse removida.

A festa litúrgica de São Bartolomeu é celebrada no dia 24 de agosto, dia provável de sua morte. As igrejas da Europa oriental são muito gratas a São Bartolomeu pelo seu testemunho de fé e santidade. Frutos esses que duram até os dias de hoje…

Referências

CANÇÃO NOVA. São Bartolomeu. Disponível em: https://santo.cancaonova.com/santo/sao-bartolomeu-modelo-que-conduz-ao senhor/. Acesso em 16 de Abril de 2020.

BENTO XVI, Papa. Audiência Geral do dia 04 de Outubro de 2006 sobre Bartolomeu. Disponível em:http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2006/documents/hf_ben-xvi_aud_20061004.html. Aceso em: 16 de Abril de 2020.

CARVALHO, Giovani. São Bartoomeu, Apóstolo e Mártir (Esfolado Vivo). Disponível em: http://www.santosebeatoscatolicos.com/search?q=+bartolomeu. Acesso em 16 de Abril de 2020.

BLOG MUNDO TENTACULAR. A Arte de Esfolar – Detalhes a respeito de uma das mais horrendas torturas conhecidas pelo homem. Disponível em: http://mundotentacular.blogspot.com/2017/02/a-arte-de-esfolar-detalhes respeito-de.html. Acesso em: 17 de Abril de 2020.

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