Cloroquina e Hidroxicloroquina: Aspectos históricos

Bento J Abreu

Extraído da casca da Cinchona L., uma árvore de até 20 m de altura e natural da América do Sul, a quinina (C20H24N2O2) tem despertado muita atenção global devido à recente pandemia provocada pelo COVID-19. Isto ocorre pois pesquisas de vários grupos ao longo do globo têm apontado efeitos promissores advindos do uso de dois medicamentos – Cloroquina e Hidroxicloroquina, especialmente em fases iniciais após contaminação pelo vírus supracitado. E,mora não haja devida confirmação de seus efeitos, o intuito deste texto é trazer curiosidades históricas acerca de ambos os compostos.

Consta que em 1638, a esposa do vice-rei espanhol no Peru – condessa de Chinchón – padecia com intensa febre terçã, tendo sido medicada por índios locais com uma poção denominada “quina-quina”. A condessa recuperou-se da febre e continuou o tratamento até se curar completamente (Oliveira e Szczerbowski, 2009). Acredita-se que amostras de quinina foram levadas à Europa pelos Jesuítas, tendo sido comercializada como o “pó dos Jesuítas”; e que teria também salvado o rei protestante Charles II da Inglaterra (1679) por meio de um chiste – o médico Robert Talbor, ao perceber que o rei se recusava a ser medicado por meio de um “remédio católico”, o havia administrado para o combate da febre como um medicamento tipicamente “protestante”.

Na verdade, diante de seu amplo uso para a prevenção e tratamento da malária (IOM, 2004), a quinina foi isolada em 1820 por dois cientistas franceses – Pelletier e Caventou. A partir de então o uso da substância foi amplificado e seu comércio lucrativo levou os alemães a dominarem o mercado mundial por meio de plantações da planta em diversos locais no globo, notadamente em Java (Oliveira e Szczerbowski, 2009).

Durante a Primeira Guerra Mundial e no interim entre as grandes Guerras Mundiais, a síntese e desenvolvimento de produtos que pudessem conter a malária foram impulsionados pela então Liga das Nações (LON, 1931)

No início do século passado alguns pesquisadores alemães buscaram substitutos para a quinina e, por meio de tais estudos, foram desenvolvidos a resoquina e sontoquina, substâncias patenteadas pela IG Farbenindustrie. Durante a Segunda Guerra Mundial (SGM), as tropas alemãs situadas no norte da África eram abastecidas com tais compostos para o tratamento antimalárico. Foi a partir da captura de soldados alemães que os aliados obtiveram amostras de sontoquina, as quais foram enviadas para pesquisadores americanos para análise e aperfeiçoamento. A nova droga foi batizada como cloroquina (C18H26ClN3); porém era, na verdade, exatamente o mesmo composto da resoquina. Sua eficácia era comprovada, possuía menor toxicidade e menores efeitos colaterais indesejáveis. Assim, os efeitos adversos mais comuns relacionados ao uso da cloroquina envolvem problemas musculares, perda de apetite, diarreia e erupções cutâneas.

Em 1955, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o ambicioso Programa Global de Erradicação da Malária. Tal otimismo advinha da formulação de novos inseticidas como o diclorodifeniltricloroetano (DDT) e do uso em massa da própria cloroquina. No entanto, o Plasmodium falciparum tornou-se subsequentemente resistente à cloroquina na Tailândia e Camboja (1957); na Venezuela e Colômbia (1960); Papua Nova Guiné (1970) e em vastas porções da África como Quênia e Tanzânia (1978), além de Sudão, Uganda, Zâmbia e Malawi (1983). O Programa Global para Erradicação da Malária foi finalizado no ano de 1969 (Packard, 2007).

Pesquisas da segunda metade do século XX passaram a buscar novas fontes para obtenção de substâncias para o combate da malária. Entre tantos outros compostos figura a Hidroxicloroquina (C18H26ClN3O), um derivado da 4-aminoquinolona sintetizado por Surrey e Hammer ​​em 1946 e supostamente, mais seguro que a Cloroquina (Browning, 2014). Além de utilizado para o tratamento da malária, trata-se de um dos medicamentos mais utilizados para o tratamento de doenças reumatológicas como o lúpus eritematoso, urticária solar e artrite reumatoide, por exemplo; apresentando como efeitos adversos transtornos gastrointestinais, dor de cabeça e tontura, entre outros.

Recentemente, o Conselho Federal de Medicina estabeleceu critérios para uso desses fármacos na infecção por COVID-19, embora citem que ainda devem ser apresentadas “evidências sólidas” para sua administração sistemática. Espera-se que novas pesquisas com maior rigor técnico possam melhor elucidar seus efeitos…

REFERÊNCIAS

Alfredo Ricardo Marques de Oliveira e Daiane Szczerbowski. QUININA: 470 ANOS DE HISTÓRIA, CONTROVÉRSIAS E DESENVOLVIMENTO. Quim. Nova, Vol. 32, No. 7, 1971-1974, 2009.

Browning, David J. Hydroxychloroquine and Chloroquine Retinopathy. Springer: New York, 2014

LON. League of Nations. Health Organization. Malaria Commission. [Quinine]. C.H./Mal./ 169. Geneva: World Health Organization. Disponível em: http://libdoc.who.int/malaria/. Acesso em: abr. 2020. 1931.

PACKARD, Randall. The making of a tropical disease, a short history of malaria. Baltimore: Johns Hopkins University Press. 2007.

US Institute of Medicine (IOM) from the report, Saving Lives, Buying Time: Economics of Malaria Drugs in an Age of Resistance, 2004, pp. 126-128.

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