Dica de Livro #5: O Senhor das Moscas

Bento J Abreu

Uma ilha paradisíaca em algum lugar do pacífico – com praias, iguarias como porcos selvagens e vegetação exuberante com uma miríade de árvores frutíferas – torna-se o único abrigo de pequenos náufragos ingleses, crianças da mais tenra e inocente idade. Sem qualquer adulto próximo, sozinhos e consternados, o grupo de desbravadores deve se organizar para superar inúmeros desafios. Nessa aventura, imagine ter que se esforçar para, diariamente, buscar alimentos, construir abrigos e alimentar o fogo; enquanto os meninos aguardam que a fumaça que brota da fogueira no topo da ilha possa atrair a atenção de navios que ali possam perspassar. Enquanto isso, os meninos poderiam deleitar-se naquela exótica praia e…

Lembro de ter visto o filme homônimo de 1990 no ensino médio. Não sei em qual aula ao certo, mas fizemos uma dinâmica parecida com a “concha”, objeto escolhido em comum acordo pelas crianças para ordenar a fala de cada um e convocar as assembleias na ilha. Recentemente pude revisitar o assunto ao ler “O Senhor das Moscas”. O que o incauto não familiarizado com essa obra de Willian Golding, por vezes chamada de alegoria, outras de conto ou mera ficção; pode perceber é que seu conteúdo é extremamente perturbador. Facilmente figuraria no gênero horror ou suspense.

Não existe um marco claro da transformação de pequenas crianças, imersas em um processo civilizatório (eram singelos estudantes) em um estado de completa selvageria; em bárbaros capazes de, inclusive, assassinar outro ser humano sem qualquer motivo aparente. Na verdade, existem diversas análises críticas sobre o livro aqui e acolá, e é bastante óbvio opor a temática do livro com o “bom selvagem” de Rousseau, não é mesmo?!

No entanto, a mensagem mais ululante que pude extrair é que: sem um senso de continuidade com a história e privados de qualquer ordenamento superior ditado pela cultura, pelos costumes, pela tradição e pela religião, os quais forma um legado repassado pelos nossos failiares; os indivíduos, mesmo os mais puros, são tragados por seus instintos bestiais e, por que não?, pela mais pura maldade. Sim, o ser humano é capaz de atos gloriosos, assim como crimes infames.

O que “O Senhor das Moscas” nos traz, a partir de uma situação fictícia, porém tão crível e brilhantemente relatada; é a importância em mantermos a conexão com o passado, refletir sobre seus erros e acertos, e se questionar acerca de ideias utópicas que não foram testadas pelo tempo. A sociedade e seu sistema de representatividade, moldada pelas liberdades individuais (principalmente direito à vida, à propriedade e à livre expressão) que beberam da fonte da filosofia grega, do direito romano e da moral judaica-cristã, por mais falha que sejam, ainda representam um estágio mais elevado da organização entre os homens.

Manter-se em equilíbrio num mundo hostil e insano, e resguardar nossa moral e dignidade, é o que podemos fazer hoje e sempre. Afinal, o mundo não surgiu do nada, você (eu) não é especial e o sol voltará a nascer no outro dia.

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