A serpente que cura: religiões e medicina

Dr Rodson Ricardo Souza do Nascimento

1. Introdução

Os símbolos são mais antigos que as letras e números. Eles são a linguagem primordial da mente humana. Segundo o dicionário, símbolo “é tudo aquilo que, por um princípio de analogia, representa ou substitui alguma coisa; aquilo que por sua forma e natureza, evoca, representa ou substitui alguma coisa num determinado contexto, algo abstrato ou ausente”. Para os psicanalistas, são “portais” para o inconsciente. O conjunto dos símbolos gera o simbolismo: “símbolos de significado constante que podem ser encontrados em diferentes produções do inconsciente” (Laplanche e Pontalis, Vocabulário de Psicanálise). Alguns simbolismo são universais, como é o caso da serpente, símbolo da medicina e de inúmeras profissões da saúde.

2. As serpentes

As serpentes são répteis de sangue frio (pecilotérmicos), muito alongados, sem pelos ou patas. São seres rastejantes e silenciosos. Algumas espécies, como as víboras, possuem veneno, cuja mordida paralisa e mata. As serpente são seres ambíguos. Não demorou muito para os antigos notarem que o veneno da serpente, quando diluído em doses infinitesimais, podia servir de remédio contra a morte. O simbolismo universal da serpente está associado as dimensões mais profundas, ao sentido da vida e da morte e a sabedoria cósmica. Em muitas religiões existe um nexo simbólico entre a serpente e a origem da vida. Assim, é com a serpente Atum egípcia; a serpente cósmica dos celtas e chineses e as serpentes híbridas (nâga) dos hindus. Por isso a serpente é vista como um “animal magico”, símbolo da iniciação e da sabedoria. Como afirma Mircea Eliade, especialista em religiões e mitos: “a serpente mística conhece todos os segredos, é a fonte da sabedoria e entrevê o futuro” (Girard, Os símbolos na Bíblia). O Faraó usava um “uréu” como símbolo da imortalidade, que era uma haste envolta numa serpente.  Era um símbolo do conhecimento secreto revelado pela deusa Isis, só transmitido ao faraó e a um pequeno número de sacerdotes iniciados. 

3. A serpente na bíblia

Se é verdade que a serpente rastejante (tectônica) pode ser um símbolo do mal e da morte (Gênesis 3), a serpente suspensa ou alada (urânica e solar) é seu oposto. Este simbolismo é claramente encontrado na Bíblia (Números 21, 4-9). Foi por ordem direta de Deus que Moisés “fez uma serpente de bronze e a ergueu num poste levantado e, se alguém era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e vivia”. O sucesso desta serpente foi tanto que ela acabou recebendo um nome próprio (Neustã), tornando-se objeto de culto idólatra por alguns hebreus em Jerusalém (2 Reis 18, 4). Isso despertou a fúria iconoclasta do rei Ezequias que a destruiu a golpes de machado. Entretanto, o seu simbolismo não foi destruído ou esquecido. O livro de Sabedoria corrige os excessos reformistas de Ezequias e afirmava que a serpente na haste era um “símbolo da salvação”, um “emblema de saúde” que próprio Deus concede aquele que o busca com fé: “[…] com efeito, quem se voltava para ele ficava curado, não em virtude do que via, mas graças a Ti, Salvador de todos” (Sabedoria, 16, 7).

Apesar do rigor das reformas de Ezequias o povo nunca abandonou o simbolismo da serpente elevada na haste. Arqueólogos encontraram, em uma tigela de bronze na cidade de Nínive, “inscrições de nomes hebraicos e também a figura de uma cobra com asas enrolada em espécie de bastão” (Walton, Chavalas e Matheus, Comentário histórico – cultural da bíblia). Este simbolismo da “serpente que cura” retornaria, de forma definitiva, no Evangelho de João: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que crer tenha nele a vida eterna” (João 3, 14-15).

3. A serpente na Grécia

Na Grécia antiga a serpente era associada a Asclépio, o deus da cura. Segundo a mitologia grega ele era filho do deus do Sol e da Sabedoria, Apolo, e da ninfa Corônis. Seu nascimento foi doloroso. Ele nasceu do meio do fogo, do ventre da sua mãe morta. Tao logo escapou da morte no parto ele foi entregue por seu pai aos cuidados do mais sábios dos centauros, Quíron, que lhe ensinou os segredos da medicina, da cura e da cirurgia. Não demorou muito para ele superar o seu mestre.

Asclépio dedicou-se com tanto afinco a sua vocação de médico que chegou a ressuscitar mortos. Ele recebeu este poder da deusa Atena: “Esta deu-lhe dois frascos que continham sangue proveniente das veias esquerda e direita da Górgona Medusa. O da esquerda podia fazer com que os mortos retornassem à vida, enquanto o da direita provocava a morte instantânea” (Julien, Minidicionário compacto de mitologia). Assim, a medicina já nascia ligada à iatrogenia.

O culto de Asclépio era envolto em secretos e o monopólio da medicina estava em poder dos sacerdotes sendo transmitidos apenas aos iniciados e seus filhos. Um dos seus devotos mais famoso foi Hipócrates de Cós (460-370 A.C). Naquela época não existiam hospitais e os atendimentos eram realizados nos templos. O tratamento envolvia o corpo, a alma e o espírito: “para obter cura, as pessoas tinham primeiro de se purificar através de jejuns e abstinência sexual. Os doentes dormiam no chão nu do templo, que compartilhavam com cobras não venenosas. Asclépio os visitava nos sonhos e prescrevia os remédios ou tratamentos necessários a cada um deles” (Halam, O livro de ouro dos deuses e deusas). Após receberem a cura, os devotos ofertavam ex-votos de mármore ou madeira correspondente ao órgão recuperado.

As constantes ressuscitações de Asclépio despertaram a ira do deus da morte, Hades, que acabou tramando sua morte. Graças a Zeus Asclépio voltou à vida, casando-se com a Epione (deusa calmante da dor), que lhe deus cinco filhos: Iaso (deus dos remédios), Panaceia (deusa da cura de todos os mares), Akeso (deus dos processos de cura), Égle (deus do bem estar), Telésforo (deus da recuperação) e Macaão e Podalírio, que seguiram a profissão do pai e se tornaram médicos lendários. Mas, eram suas duas filhas, Panaceia e Hígia, quem mais acompanhavam o pai. Por isso que o tradicional juramento médico, ou “Juramento de Hipócrates”, menciona seus nomes: “Eu juro, por Apolo, médico, por Asclépio (ou Esculápio em latim), Higeia e Panaceia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo o meu poder e a minha razão, a promessa que se segue […]”

4. O símbolo da medicina

Na iconografia grega Asclépio era representado como um velho sábio e bondoso, que portava um bordão com uma serpente enroscada. Este é o símbolo mundial da medicina. É como, no entanto, que o símbolo da medicina seja confundido com o emblema de outro deus e profissão: o caduceu de Hermes (Mercúrio em latim). Esta confusão começou durante a Renascença. Na verdade o caduceu é mais antigo que o bastão de Esculápio e sempre esteve relacionado ao comércio. A confusão se deve ao “Hermetismo. O hermetismo era um conjunto de tradições associadas a “Hermética” que influenciou a magia, a pintura, a alquimia e o misticismo europeu no final do século XV (Hinnells, Dicionário das religiões).

A hermética, por sua vez, era um conjunto de práticas especulativas sobre a natureza surgidas, segundo acreditava-se, na cidade de Alexandria do Egito, nos séculos II e III d.C. a hermética teve este nome, precisamente, em homenagem ao deus Hermes, intérprete e mensageiro dos deuses e criador da linguagem humana. Era Hermes quem conduzia a alma dos mortos ao Hades. Em Alexandria ele acabou sendo sincretizada como o deus da medicina e sabedoria egípcia, Tot, tornando-se “Hermes Trimegistro” ou “Hermes três vezes grande”. Tudo isso, unido a princípios da filosofia neoplatônica e estoica e a tradução grega da Bíblia (septuaginta) gerou o “Corpus hermeticum”, por essa proximidade com a vida e a morte, muitos acabaram confundindo os símbolos de Hermes e Asclépio. A publicação das obras de Hipócrates em grego pelo tipógrafo suíço e alquimista Johannes Froben em 1538 é, muito provavelmente, a origem da confusão moderna entre os dois símbolos. O caduceu de Hermes, uma haste de ouro com asas em sua extremidade superior, era o símbolo da alquimia e também o símbolo da tipografia de Froben. Por isso ele estampou este símbolo e não o de Asclépio, na página frontal das obras de Hipócrates.

4. A serpente em Portugal

Para concluir: o antigo nome do território português era “Ophiussa”, termo dado pelos antigos gregos a terra de Camões, que significa “Terra das Serpentes”. Segundo lendas e achados arqueológicos, os primeiros habitantes desta região, veneravam serpentes aladas: as serpes. Estes povos teriam suas origens nos antigos celtas. As serpes são muitas vezes representados como um dragão ou um grifo. Segundo a tradição estes animais fantásticos teriam sido originados da primitiva serpente alada de Moisés: a “Serpe real”. O sentido deste símbolo real português está ligado tradição dos monges cistercienses, da ordem do Templo e no chamado “Milagre de Ourique”.  Segundo a tradição, pouco antes da Batalha da célebre Batalha de Ourique, ponto alto da Reconquista Cristã contra a ocupação islâmica, D. Afonso Henriques teria recebido uma visita divina. Um ancião, que o rei já tinha visto em sonhos, profetizou sua vitória. Em seguida D. Afonso teria sido iluminado por uma grande luz, e aos poucos, visto o sinal de uma grande Cruz e Jesus Cristo crucificado. Na ocasião também teria sido revelado a identidade do anjo protetor de Portugal: O arcanjo Miguel. Finalmente, o Cristo luminoso expôs suas cinco chagas e, após a vitória, D. Afonso Henriques, decidiu que a futura bandeira portuguesa passaria a ter cinco escudos, ou quinas, em cruz, representando os cinco reis vencidos e as cinco chagas de cristo. Em suas próprias palavras: “E que tudo passou assim eu el Rei Dom Afonso o juro pelos Santíssimos Evangelhos de Jesus Cristo, em que ponho a mão. Pelo que mando a meus sucessores, que tragam por divisa e insígnia, cinco escudos partidos em cruz, por amor da Cruz e das cinco Chagas de Jesus Cristo, e em cada um trinta dinheiros de prata, e em cima a serpente de Moisés, por ser figura de Cristo. E esta será a divisa da nossa nobreza em toda nossa geração”. Este deveria ser o símbolo do futuro império português. E foi isso que realmente aconteceu como podemos ver no selo do rei D. João I e nos imperadores do Brasil…

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