Quais os efeitos do lockdown para a saúde mental?

Bento J Abreu

Introdução

Ultimamente, a população atônita foi alvo de uma série de políticas públicas altamente questionáveis no que diz respeito ao enfrentamento da pandemia de COVID19. Obviamente, é importante considerar que todo o episódio é relativamente recente e muitos estudos são ainda inconclusivos. Isto ocorre pois ainda avançamos no entendimento do mecanismos de ação do vírus Sars-Cov-2, do tratamento imediato, do tratamento tardio, da efetividade das vacinas que se encontram no mercado ou mesmo do lockdown. Este, aparentemente, representa a estratégia preferida de muitos políticos pois, supostamente, postergaria a contaminação das pessoas enquanto os gestores se esmerariam na contratação e formação de profissionais qualificados, incremento da infraestrutura hospitalar e aquisição de resiradores, por exemplo. Um ano se passou e lidamos com um novo lockdown em diversas cidades do país.

O presente texto visa fazer uma breve revisão narrativa sobre o impacto do lockdown na saúde mental da população.

Antes de iniciarmos, é importante frisar o real significado de lockdown, tendo em vista uso incorreto em muitos canais de informação. Por definição, o termo significa bloqueio, trancamento ou fechamento completo. Trata-se de uma política pública extrema utilizada em períodos de conflitos e crises de saúde que, supostamente, poderia limitar a contaminação do vírus Sars-Cov-2 a partir da restrição da circulação de pessoas e das atividades produtivas usuais. Em situações mais graves, o lockdown poderia se estender, inclusive, às atividades consideradas essenciais como a venda de insumos pelos supermercados e farmácias, ou mesmo com restringir acesso a igrejas e estruturas dos diversos níveis de saúde.

O lockdown é uma manifestação imposta que não deve ser confundida com outras formas de isolamento social, que implica numa recomendação para distanciamento entre pessoas distintas do convívio diário visando coibir aglomerações. Podendo ser vertical ou horizontal, o isolamento social objetiva controlar as taxas de transmissão do vírus Sars-Cov-2 pela redução do contato interpessoal.

A presente revisão não pretende dissertar especificamente sobre os impactos da pandemia por COVID-19, mas objetiva apresentar os dados mais recentes sobre as repercussões do lockdown, aplicado pelos gestores públicos do Brasil e de outros países, para a área de saúde mental. Outras áreas sabidamente são impactadas como nutrição, atividade física, economia e direito e; quem sabe, oportunamengte será acessada.

Repercussões para a saúde mental

Em 21 de janeiro de 2021, durante a 148ª sessão do Conselho Executivo sobre o Surto de COVID-19, o Diretor da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, citou que a pandemia atual ainda perdurará por muitos anos e que já causou “trauma em massa em uma escala maior do que a Segunda Guerra Mundial”.  Segundo o diretor, “quase todo mundo é afetado, cada indivíduo na superfície do mundo realmente foi afetado” e que “quando há trauma em massa, isso afeta as comunidades por muitos anos”.

O cenário apontado pela OMS corrobora com o trabalho de Sher (2020), que antecipava os possíveis efeitos da pandemia para a saúde mental. Ansiedade, estresse, medo de contágio, depressão e insônia foram potencializados não apenas na população geral, como também em profissionais da saúde. Segundo o autor, tais condições, associadas ao isolamento social, estresse crônico e dificuldades econômicas podem influenciar negativamente as populações mais vulneráveis, como aqueles que apresentam doenças psiquiátricas pré-existentes.  O estudo de Sher hipotetizou que as taxas de suicídio também aumentariam e apresentar-se-iam altas durante e após a pandemia.

Embora muitos estudos ainda estejam sendo conduzidos no presente momento, a associação entre o lockdown durante a pandemia e o aumento da taxa de suicídios não pode ser negligenciada. Dados de um recente estudo colombiano observou o risco para o suicídio numa amostra de 700 participantes com idades entre 18 e 76 anos a partir de um questionário online durante a política de lockdown naquele país (Caballero-Domínguez et al., 2020). Apesar de um número experimental baixo, este estudo evidenciou que 7,6% dos indivíduos, o que representaria um a cada 13 colombianos, apresentaram alto risco para o suicídio. Este esteve associado a alto estresse, episódios de depressão e insônia (Caballero-Domínguez et al., 2020).

Dados advindos da Índia também apontaram que a política de lockdown pode ter sido a responsável pelo aumento do número de suicídios (Singh, 2020). É importante citar que este país vivenciou um dos bloqueios mais longevos do mundo e, em uma análise de causas citadas em uma série de casos de suicídio, foi apontado principalmente o medo da infecção, como também a crise financeira, solidão, boicote social e pressão pela quarentena, entre outros, como fatores que motivaram o autoextermínio.

Por outro lado, o trabalho de Mourouvaye e colegas (2020) evidencia outra perspectiva que também deve ser considerada. Nesse estudo retrospectivo conduzido por pesquisadores franceses envolvendo 234 crianças e adolescentes que deram entrada em hospital especializado devido a comportamento suicida, houve uma redução significativa da incidência da admissão durante o lockdown. Interessantemente, os autores sugerem que o bloqueio foi um dos fatores que motivaram a redução na busca por auxílio médico durante o período analisado.

Não foram encontrados dados sobre o impacto do lockdown nas taxas de suicídio no país até o presente momento. Entretanto, sabe-se que a pandemia foi capaz de aumentar a ideação de suicídio em alguns países, incluindo o Brasil, notadamente em jovens do sexo masculino, casados e com certas diferenças e crenças sobre a saúde (Cheung et al., 2021). Assim, foi instado o desenvolvimento de uma rede colaborativa para estabelecimento de políticas públicas que pudessem prevenir o suicídio e promover a saúde mental. Nesse contexto, apesar dos poucos estudos existentes, as evidências indicam que o lockdown, pelo contrário, é capaz de causar sérios transtornos para a saúde mental da população em geral e que seu contexto deve ser devidamente analisado em cada comunidade, principalmente as mais carentes.

Referências:

Caballero-Domínguez CC, Jiménez-Villamizar MP, Campo-Arias A. Suicide risk during the lockdown due to coronavirus disease (COVID-19) in Colombia. Death Stud. 2020 Jun 26:1-6.

Cheung T, Lam SC, Lee PH, Xiang YT, Yip PSF; International Research Collaboration on COVID-19. Global Imperative of Suicidal Ideation in 10 Countries Amid the COVID-19 Pandemic. Front Psychiatry. 2021 Jan 13;11:588781.

Dsouza DD, Quadros S, Hyderabadwala ZJ, Mamun MA. Aggregated COVID-19 suicide incidences in India: Fear of COVID-19 infection is the prominent causative fator. Psychiatry Res. 2020 Aug;290:113145.

Mourouvaye M, Bottemanne H, Bonny G, Fourcade L, Angoulvant F, Cohen JF, Ouss L. Association between suicide behaviours in children and adolescents and the COVID-19 lockdown in Paris, France: a retrospective observational study. Arch Dis Child. 2020 Dec 22;archdischild-2020-320628.

Sher L. The impact of the COVID-19 pandemic on suicide rates. QJM. 2020 Oct 1;113(10):707-712. doi: 10.1093/qjmed/hcaa202.

Singh GP. Migrant crisis after a lockdown in India during COVID-19 pandemic: an invisible mental health tsunami. Prim Care Companion CNS Disord. 2020;22(4):20com02710.

1 comment

  1. Com essa pandemia, juntamente com lukdal, a população está meio confusa por diversas maneiras, porém essa confusão de iniciou com políticos e reportagem causando indecisões, por relatar diversas causas inconclusiva deixando a população desacreditada no argumentos que estão sendo usado. A impressão que temos e de que uma briga política se criou e se estende em cima de um prebrema que (parece) que os governantes não estão querendo resolver , para não quebrar a economia do país. Com isso a população que está em casa deixa de seguir as normas dada por esses causando mais ainda a pandemia, por não acreditar que há de fato riscos e que devemos estar em alerta a todo momento. Além de se cuidar principalmente da alimentação. Não esquecer que em casa também tem como fazer os exercícios físicos só uso de higienização sempre .

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