Desinformação na bacia das almas

Bento J Abreu

Dizem as más-línguas que jornalista é como o pato. É verdade que esta ave sabe nadar, andar e voar; mas nada faz com propriedade… Talvez tal comparação advenha do fato de o jornalista de hoje ter relegado sua função de informar para transformar a realidade de acordo com sua visão de mundo. Ou talvez por não informar devidamente um evento de interesse público. E na verdade, tal situação torna-se mais preocupante quando o profissional do jornalismo aborda temas relacionados à saúde.

Vou direto ao ponto: Numa singela reportagem sobre a seleção brasileira, jornalistas profissionais de um conglomerado midiático citaram que o jogador Renan Lodi, lateral esquerdo cujo passe pertence ao Atlético de Madrid, teria sofrido um trauma na “bacia” em partida contra o Equador! Ora, será que é hábito um jogador do Brasil carregar um recipiente de formato circular para um jogo da Copa América? Fico ainda mais estupefato pelo fato de tal bacia ter sofrido uma pancada! Como isso ocorreu, Meu Deus?!

Obviamente, o jornalista referiu-se aos ossos da região pélvica. No entanto, há tempos não se usa o termo “bacia” para se referir à pelve. Da mesma forma, palavras como “rótula”, “omoplata” ou epônimos como tendão de Achiles e trompa de Eustáquio, tão propalados por narradores e comentaristas esportivos, somente desinformam. Pode parecer preciosismo, mas a terminologia anatômica deve ser bem utilizada, até mesmo por leigos, a fim de simplificar e facilitar o entendimento das inúmeras estruturas corporais.

Ora, mas trata-se de “uma forma popular de apresentar essas partes corporais”, dirá o incauto… Não, o uso inadequado de termos anatômicos e clínicos pode induzir erros graves! Tome como exemplo o conceito de tendinite, tão alardeado frente à qualquer condição médica envolvendo dor nos tendões de algumas articulações. Bem, o sufixo “ite” designa inflamação; uma condição bem distinta de uma tendinopatia crônica ou de uma tendinose, por exemplo. Perceba que, se mal empregado, o termo gerará confusão e em última análise, direcionará a formas variadas de tratamento / reabilitação dessa condição!

E o que dizer de uma novela transmitida há muitos anos pela mesma emissora dos jornalistas em questão e que se prestava a, inclusive, divulgar a doação de medula!? Do latim, medulla refere-se ao miolo, à parte interior de algo. Mas de quê exatamente?? Na ausência de maior especificação do termo (que no vaso seria a medula óssea), muitos indivíduos ainda acreditam que se trata de um “transplante de medula espinal” e que, se efetuassem essa doação, poderiam exibir sequelas motoras e sensitivas!

Assim, profissionais de outras áreas também devem ser responsáveis por repercutir informações fidedignas para a população. E parte disso envolve o devido reconhecimento da nomenclatura anatômica, objeto de trabalho e estudo de qualquer especialista que lide com o corpo humano.

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