Pela estrada da vida

Bento J Abreu

Não, esse título-clichê não faz referência à música homônima da dupla Milionário & José Rico. Apenas diz respeito ao meu entendimento sobre um dos filmes mais tristes, e por que não?!, belos que até então já vi!

A verdade é que já estava pensando em escrever algo a respeito sobre a “A Estrada” (The Road, 2010), adaptação do livro de Cormac McCarthy, dirigida por John Hillcoat e estrelada por Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee, entre outros grandes artistas que passam pela tela tal como meteoros diante de tamanho impacto, embora curta aparição.

[ok, contém SPOILER, apesar de se tratar de um filme de 2010]

Bem, o fato é que perdi a oportunidade de abordar esse tema no dia dos pais. Isto porque a história conta a trajetória de um abnegado pai e seu terno e bondoso filho que atravessam um cenário pós-apocalíptico em busca do litoral (?). Nessa travessia, a fotografia cinzenta e sombria mostra um mundo desolado, mas sem que se explicite o que causou tamanha destruição (Guerra? Fúria da natureza? Colapso do sol?). Trata-se de um mundo caótico onde não há vegetação, animais, ordem ou conforto. Pior, a falência da civilização fez com que os sobreviventes se tornassem os seus piores inimigos. Ávidos por carne humana, hordas de bárbaros são capazes de defumar pessoas vivas em seus porões, enquanto se organizam em bando para novas caçadas.

Tudo contrasta com as memórias pregressas do pai, que apresenta uma visão feliz de sua vida (a fotografia é colorida não por acaso) ao lado de sua linda mulher (Charlize Theron) e da espera de seu primeiro filho. Era um mundo que, agora, apenas habita seus sonhos. Aliás, possivelmente pela desesperança e tristeza, sua esposa já sucumbira – uma das cenas mais impactantes da película – e saíra pela noite enevoada em busca de uma morte ansiada. Como explicar para uma criança de aproximadamente 7 anos, herdeira do apocalipse, sobre como sua saudosa mãe se fora? Como descrever um mundo que era tão diferente e cheio de vida para alguém cuja fome é palpável? Como garantir a esperança quando a realidade evidencia justamente o contrário?!

A fome, o frio e o cansaço ficam estampados nas silhuetas de pai e filho, especialmente quando se despem ou inadvertidamente encontram um espelho; ao passo que uma felicidade efêmera logo abunda quando encontram um bunker repleto de alimentos enlatados. Mesmo nessa situação, o menino busca agradecer o bom agouro por meio de uma singela oração. É algo simplesmente sublime. A vida é uma gangorra e, nessa conjuntura, um banho quente e uma barba podem resgatar a dignidade de outrora, mesmo que o genitor saiba que é preciso seguir adiante.

É curioso que a criança é justamente aquela pessoa que “carrega a chama”, retendo uma bondade e esperança quase vãs, o que contrasta com a rudeza, tenacidade e o pragmatismo de seu amado pai. Ciente de que está doente e de que logo perecerá, ele busca incansavelmente preparar seu único filho para confrontar, sozinho!, todas as hostilidades de um mundo que pouco oferece. O pai sabe o que precisa ser feito, inclusive matar se preciso, e obviamente demonstra certa indiferença pelos demais que encontra em sua trajetória. Em um certo momento, diz para um transeunte velho e cego que peregrinava a esmo e que se reuniu a contragosto que seu filho era um Deus para ele! “Algo muito perigoso de se dizer”, como foi respondido pelo cativante personagem de Robert Duval…

É por isso que pai e filho se completam. O amor de ambos, mesmo com diferentes formas de demonstração, é o cerne do filme. Representa uma beleza que transborda nesse cenário sombrio. Mas e quanto a estrada?! Ora… A estrada representa a vida, um longo e tortuoso caminho que nos leva à redenção…

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