ANATOMIA & FILOSOFIA: A transcendência como fundamento da ética e dever moral

Artur Nascimento (costa_artur@hotmail.com)

Filosofos relevantes da Modernidade, como Nietzsche e Kant, participaram da busca de um sistema moral, um código de ética e conduta da vida humana que não fosse dependente da moralidade cristã. Todos falharam vergonhosamente.

A frase “se Deus morreu, tudo é permitido” é erroneamente atribuída a Nietzsche e, às vezes a Dostoiévski. Nenhum dos dois falou expressamente isso. Não era intenção de Nietzsche promover o niilismo, a perda de sentido da vida. Mas o que suas idéias fizeram foi exatamente contribuir para espalhar o niilismo pelo mundo.

Nietzsche não combatia apenas o falso moralismo, mas a moral religiosa em si. Mais precisamente a moral judaico-cristã. Assim, ele e outros de sua lavra, acreditavam estar libertando o Homem. Sem as amarras da moralidade religiosa, sem necessidade da dimensão transcendente do homem, todos estariam verdadeiramente livres para ser e fazer o que quisessem, inaugurando uma era de delícias.

Porém, essa nova realidade que iria surgir não seria feliz. Ao anunciar Deus como morto, os próprios homens se tornariam deuses, deuses caídos. Ou seja, demônios. Cada um exigindo sua fatia de existência prazerosa sem culpa ou prisões morais. Criando seu micro-universo particular em que, enfim, libertos das amarras religiosas, eles possam ser tudo.

Qual o resultado de milhões de microuniversos imanentes, cada um com seu deus-homem, existindo lado a lado, espremidos, num mundo real, físico e finito?

Um mundo em que os dogmas, as regras, os ritos e as leis são mais numerosas e exigentes do que qualquer religião. E as penas. Nesse mundo de deuses caídos o nível de perfeição exigido é máximo.

Para combater o niilismo que Nietzsche sabia que resultava de suas idéias, ele criou o conceito do super-homem, o ubermensch. Esse conceito foi deturpado por eugenistas e nazistas, como se fosse um conceito de superioridade racial. O super-homem de Nietzsche na verdade era um homem superior mentalmente, psicológicamente, livre das amarras morais da fé e da ameaça do inferno, que daria sentindo à existência através de seu próprio espírito livre. O que pensaria Nietzsche hoje, ao ver que, após diversos movimentos sociais e ideólogos terem ampliado a presença de suas ideias no mundo, o homem nunca esteve tão mentalmente doente e psicologicamente fraco?

Não é para menos se esse mundo sem Deus atormenta o homem a todo instante com novas exigências morais, novas adequações de comportamento, novos maneirismos e limites linguísticos, novas tolerâncias e intolerâncias, novos crimes morais de mera conduta, novos tribunais coletivos, novas formas socialmente aceitas de fugir do sofrimento e de buscar sentido existencial. Se antes era 10 mandamentos, hoje são incontáveis.

Os processos de purificação que a modernidade pariu são sufocantes, as redes sociais apenas os tornaram mais cotidianos e banais. Sem um mundo transcendente, a perfeição, quando a querem, tem que ser aqui, e os horrores do séc. XX testemunham o quanto essa purificação que precede o falso éden pode custar. As doenças psíquicas e psicológicas e o abuso de drogas, são outro testemunho disso.

E o homem? Esse homem, sem transcendência, não ganhou a liberdade nem a onipotência. Tal qual um parafuso de geleia, ele não aguenta pressão. Ele não encaixa.

Quanto a imputação a Dostoiévski da fala “Se Deus morreu (está morto), tudo é permitido”, temos que isto provém da racionalização do personagem Ivan, em Os Irmãos Karamazov.

Ivan é um dos irmãos Karamazov, intelectual ateu de espírito revolucionário. No campo moral é cínico e provocador. Ele diz “Tudo é permitido. Vê, meu amigo, Cristo foi pura e simplesmente um homem comum”. Daí outros personagens no decorrer da história vão desenvolver as ideias de Ivan. Rakitin fala: “Se não existe a imortalidade da alma, então não existe tampouco a virtude, logo, tudo é permitido.”

O axioma famoso (“Se Deus está morto, tudo é permitido) foi formado no ambiente da discussão literária e filosófica, e apesar de não ter sido expresso literalmente dessa forma pelos autores, representa um elo entre Nietzsche e Ivan Karamazov; mas o autor em si, Dostoiévski, repele veementemente esta frase ao longo de sua obra. Foi inspirado pelas ideias de Ivan, que um servo, no livro, monta um ardil e mata o próprio pai.

Dostoiévski acreditava que o mundo não poderia ser construído a partir do espírito livre e individual dos homens, contrariando totalmente a tese do Super-homem de Nietzsche como a solução para o vácuo da transcendência. A linha filosófica de Nietzsche, desembocando em outros mais a frente como Sartre, era que a essência individual livre determinaria a existência (existencialismo). Não à toa Sartre foi um degenerado, abusador moral e sexual.

Já para Dostoiévski o próprio ser humano somente se constrói a partir da interação com os outros. Portanto, a força geradora de uma realidade benéfica, não caótica, digna, ética, não pode partir do espírito individual, mas das relações com os outros. A existência antecede a essência. É o campo das relações humanas que vai determinar a essência pessoal e o potencial humano.

Isso muda tudo pois condiciona que o homem só se concretiza considerando o outro e ele mesmo no processo, o que implica um sentimento de alteridade, que significa olhar o outro como a você mesmo, não enxergar o grupo social como um mero cenário onde seu espírito “livre” vai agir, mas como o outro. Assim como Cristo beijou o traidor, um outro personagem de Dostoiévski beija seu inquisidor. Deus não está morto. Deus é o outro. Para o escritor, mesmo que Cristo não tivesse existido, deveríamos ficar com ele.

Essa é a diferença com que Nietzsche e Dostoiévski tratam o problema ético do “tudo é permitido”.  O alemão traça uma ética a partir da potência criadora humana. O russo traça uma ética da alteridade e da comunhão. Ambas são uma solução para a questão do suposto “vácuo moral religioso”.

E eis aqui o ponto chave da questão: Não pode existir uma ética de alteridade e comunhão dos homens sem que essa existência (que precede a essência humana, lembra?) possua em si mesma preceitos próprios de justiça e moral, de certo e errado. Sem que nela exista um fundamento natural, divino, intrínseco ao mecanismo da realidade, à própria Criação. Um Direito Natural.

Ora, se as normas morais, de convivência, e de comunhão, não tem fundamentos transcendentes, elas não têm nenhuma validade sequer. Elas não existem, pois ficariam dependentes das paixões, das vontades e das opiniões individuais de cada um. Nesse caso não seria o caminho apontado por Dostoiévski, e sim o caminho de Nietzsche, em que o espírito individual determina a existência. É o de Ivan Karamazov, do servo parricida, de Kant, de Sartre, do Marques de Sade, é o caminho de qualquer maluco que entra numa escola atirando a esmo e se mata logo após. Cada um escolhe seu caminho. A semeadura é opcional, mas a colheita é obrigatória.

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