Plano de Ensino?

Dr Althen Teixeira Filho – Professor Titular – UFPel

Em 335 a.C., Aristóteles fazia dos passeios pela natureza uma forma de ensinar e orientar os pensamentos daqueles que, com ele, aprendiam. Entre caminhadas, conversas e controvérsias, eles observavam os animais, as plantas, os minerais, suas relações, ao mesmo tempo que, por certo filosofando, esse discípulo preferido de Platão atuava libertando e vivificando mentes para um raciocínio universal, criativo, gratificante e estimulante.

Esta era a “Escola Peripatética” (do grego “peripatetos”, ­ de “passeio”), a qual representa um ícone e um exemplo a ser seguido até hoje por aqueles que buscam aprimoramento numa educação fértil, espontânea e, como se deseja, fecunda.

Para suas jornadas, e felizmente para todos nós, Aristóteles não precisava preencher “planos de ensino”, “projetos de pesquisa” ou “respeitar prazos”, desfrutando da liberdade que lhe permitiu aproveitar sua genialidade que orienta, até hoje, o raciocínio científico de muitos de nós.

Entretanto, se Aristóteles deambulava com corpo e mente, desfrutando do livre pensar, hoje nas universidades vivenciamos um sufocamento advindo de burocracias, de normas internas, de decretos, mais portarias e outras desconexas orientações, muitas delas antagônicas à realidade e aos propósitos do que deveria ser o ambiente acadêmico. Aliás, o termo “Akademia” também mostra origem do grego, referindo-se a um bosque sagrado em Atenas, por onde, previsivelmente, Aristóteles também jornadeou.

O pensamento liberto, o volitar da imaginação, os revoares da psiquê ou até mesmo as salutares e necessárias controvérsias das dúvidas e contradições são sementeiras de novos ideários nas conquistas do saber e da intelectualidade, tudo como um “passeio” para o universo do ainda “impensado”.

O cérebro e a mente têm seu desenvolvimento e aprimoramento lastreados em um espírito solto, no raciocínio desenfreado, no agir responsável, como também no esvoaçar das “asas da imaginação”. O processo ensino-aprendizado jamais pode desprezar as oportunidades e liberdades de momentos precisos e preciosos, nos quais se observa o interesse e o momento adequado de um grupo em absorver determinadas explicações e lógicas. É impossível, quando não irresponsável, não oferecer conteúdos ou explicações sobre quaisquer temas, só porque se alongam dúvidas, ou porque perguntas e respostas irão consumir (melhor seria dizer “construir”) um tempo não programado.

Hoje, os professores encontram-se, de alguma forma, acorrentados em obrigações incoerentes e desinteligentes (para ser educado), sendo submetidos ou preenchendo impositivos documentos, oriundos daqueles que não sabem como pensar, não sabem o que fazer ou, quiçá não raro, não entendem o que seja o fecundo ambiente de uma sala de aula.

Tudo tem que estar no “plano de ensino” uma vez que, se não estiver abarcado, não vale, sendo possíveis inovações ou descartes tratados como “ilicitudes”.

O “plano de ensino”, como se apresenta, é burocracia prejudicial, obstando criatividades e espontaneidades! Burocratas não percebem que, na importantíssima tarefa de ensinar, deve-se ter a humildade de saber inovar e aprender a cada instante!

Para tais pessoas, no “plano de ensino” já devem constar os dias de provas (treinando alunos para estudar em determinados momentos e não para aprender uma profissão); se as questões serão “diretas” (como nas ineficientes provas de múltiplas escolhas) ou dissertativas (se o acadêmico deve fazer o óbvio, proveitoso e necessário ato de refletir e escrever); e, entre outros, também informar o que vai ser apresentado na aula seguinte (referência absolutamente desnecessária para estudantes afetos a livros, pois, a partir desses, já sabem e entendem quais serão os temas vindouros).

Seria até compreensível que um leigo imaginasse uma coisa como o atual “plano de ensino”, mas é inaceitável que verta do próprio âmbito acadêmico. Somente uma pessoa que não entende o significado inspirador e imaginoso de uma sala de aula poderia deturpar algo que deveria ser uma “breve orientação geral imprecisa de conduta”.

Hoje, o “fazer acadêmico” lastreado em regramentos burocráticos submete a criatividade acadêmica a ações pré-programadas, enquanto o proveitoso e oportuno momento de uma boa explicação e resposta vai além da repetição de determinado tema, indo alcançar a excitação intelectual de um novo imaginário.

O ato de conseguir repetir uma frase ou um conceito está longe de significar aprendizado!

Por fim, permite-se um brevíssimo exemplo!

Em uma aula de neuroanatomia, explicava os nervos cranianos, abordando nos animais a movimentação da musculatura da face e a mímica facial, como também a inervação das glândulas lacrimais e a humidificação dos olhos.

Com surpresa, e até alegria, ouvi uma estudante levantar um questionamento inteligentíssimo, sensível e pertinente: professor, os animais choram?

Como responder com um reles “sim” ou “não”?

Às considerações iniciais seguiram-se novas perguntas, outras divagações sobre os significados fisiológicos e psicológicos do choro; ainda sobre os tipos de lágrimas; mais oportunidades de falar em senciência animal; e ainda divagar sobre a beleza da profissão que eles escolheram. Acalentou-se, inclusive, a memória de São Francisco de Assis; também refletimos sobre o convívio doméstico com nossos companheiros no processo evolutivo de todos; e, importante, sem quaisquer preocupações se tais debates constavam ou prejudicariam o “plano de ensino”.Foram reflexões maravilhosas, várias com intelectualidade, não programadas e extremamente proveitosas que avançaram até o final da aula!

Anatomy students studying skeletons and specimens in a historical laboratory

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