Agradecimento aos mestres

Bento J Abreu

“O ingrato é o pior dos homens.” Paráfrase atribuída a São Tomás de Aquino

O ano era 2008. Falava-se sobre as Olimpíadas na China, a eleição de Barack Obama e o crime chocante que vitimou Isabela Nardoni. Imerso em meu pequeno mundo de artigos e leituras, só pensava em defender o meu doutorado na UFMG. Daí em diante… bem… Quem já passou por essa etapa sabe muito bem que, nessas condições, o ex-bolsista e recém-doutor cai em um limbo existencial. Com um pedaço de papel timbrado pelo MEC, resta-lhe procurar um emprego escasso e altamente especializado em instituições de ensino.

Soubera, algumas semanas antes da defesa, que o Departamento de Morfologia da UFMG abriria concurso para Professor Substituto de Anatomia Humana. Ora, permanecera entretido com outros assuntos durante os últimos cinco anos — biologia celular, histologia, neurociência — e já não estava familiarizado com a temática. Estava hesitante, receoso. Ainda assim, resolvi inscrever-me na contenda.

Passei a estudar o “Dângelo & Fattini” e a conhecer as peças do departamento, contando com o auxílio do Ernani Amaral, então colega de doutorado e professor de uma faculdade privada — hoje, ele é Professor da UFJVM.

Só havia um inscrito no concurso: eu mesmo. Quem organizou o certame foi uma professora muito humilde e carismática, mas com quem pouco tivera contato durante a pós-graduação: Karin Birgit Bottger. O seu fenótipo tipicamente alemão contrastava com um forte sotaque mineiro que, vez por outra, era entrecortado por uma gostosa e estridente gargalhada. Pois bem, lembro-me até de algumas questões que ela aplicou durante a prova prática: tendão do cerebelo e óstio faríngeo da tuba auditiva. Tive sorte. Passei com uma nota medíocre, mas suficiente para ingressar em minha primeira (e única) profissão como celetista.

Passei a ministrar aulas para Biologia, Psicologia e Enfermagem num período letivo já em andamento, que perfazia os três turnos. Estava tudo muito acelerado: montava as aulas em datashow — naquela época já disponível — nas madrugadas e revia as peças um turno antes das aulas práticas. Entrava em sala, ministrava a aula e já partia para uma nova rodada. A Professora Karin me dava dicas e também contava com o auxílio da Professora Micena Roberta Miranda Alves e Silva. Adorava sentar-me no refeitório do ICB com elas e os demais professores, escutar os seus “causos” e histórias…

Seis meses. Foi um período de intenso aprendizado, tão produtivo que acabei por prestar concurso e passar na UFRN, instituição que me acolheu e cujo quadro hoje tenho orgulho de integrar como professor de Anatomia Humana. E eis que, 18 anos depois, recebo um vídeo da amável Professora Karin (vide abaixo), que me faz recordar justamente daquele período — o de um jovem professor/aluno que buscava seu lugar ao sol ao lado de gigantes. Aos meus mestres, meus sinceros agradecimentos.

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