O assassinato de reputações da “Nossa Ciência”

Uma das maiores inverdades propalada aos quatro ventos é o chamado consenso científico. Trata-se, na verdade, de um grande sofisma pois a ciência, por definição, subsiste no debate e no confronto de ideias. Na verdade, o método científico envolve um conjunto de ações e procedimentos, análise e reexame de conceitos e definições, que visam incrementar o conhecimento sobre determinado assunto. Assim, questionamentos e ceticismo são (e devem ser) traços naturais de qualquer cientista, aquele profissional irrequieto e ávido por explicações a fim de se atingir a “verdade”.

Visando compreender vários dogmas vigentes nos setores menos plurais das universidades, em 2017 ajudei a organizar o “I Ciclo de Estudos sobre Corpo Humano, Filosofia e Sociedade: Reflexões sobre aborto, drogas e gênero”, um projeto de extensão aprovado pelo colegiado do Departamento de Morfologia, classificado e financiado por edital de eventos da UFRN. Esse humilde evento teve como embrião dúvidas e perguntas genéricas realizadas por alunos durante as aulas de graduação tais como 1) a utilização de drogas como a maconha, sua regulamentação e seus mecanismos de ação no corpo humano, 2) o aborto em condições especiais como na microcefalia e sua relação com a eugenia moderna, 3) a abordagem psiquiátrica e psicológica na pedofilia e 4) a questão da ideologia e disforia de gênero. Como pode ser notado, tais assuntos possuem uma grande interface com outras disciplinas como filosofia, bioética e direito. É sabido que esses temas, polêmicos por natureza, costumam gerar grande desinformação por não dar respaldo teórico na profundidade necessária, livre de ideologias, e obviamente não contribui para uma formação intelectual plena do aluno acerca de tal temática.

Não foi surpresa que esse pequeno e humilde evento incomodou muita gente. Desde o seu início, uma matilha de profissionais autoritários, subversores ideológicos e arautos da ciência-de-faz-de-conta mobilizaram suas ramificações na mídia-militante para atacar covardemente os organizadores do projeto e, notadamente, uma das palestrantes. Destaco o papel altamente questionável da “jornalista” Mônica Costa, da revista eletrônica Nossa Ciência (“Minha Ciência”?), que sequer buscou compreender o outro lado do debate com afinco. Posicionando-se como uma verdadeira torcedora, empreendeu um velado assassinato de reputações. Belo jornalismo investigativo esse que mal descobre um email para contato!

A argumentação dessa “jornalista” foi simplesmente pueril. Primeiramente, questionou a “ausência” do currículo Lattes da psicóloga Marisa Lobo, palestrante de renome nacional e autora de diversos livros sobre a ideologia de gênero. Depreende-se que se você, incauto leitor!, não possuir um Lattes atualizado; não deve ter voz na academia e muito menos atuar no mercado de trabalho. Afinal, você não estaria do lado da “syênssia”. A “jornalista” supracitada continua citando que a palestra gerou “intenso repúdio da comunidade científica”. Seria da mesma comunidade científica que ataca violentamente uma suposta “biologização do social” e desconsidera a presença da disforia de gênero e de outras desordens médicas em inúmeras condições, como atesta organismos internacionais da saúde? Será que essa tal comunidade científica, cujo impacto e relevância científica são pífios se comparados aos próprios pares (em quaisquer rankings mundiais!), anseiam por rebaixar as ciências biomédicas frente à sua neófita ideologia, não permitindo qualquer debate sobre assuntos de interesse geral? Isso seria indício do “descolamento dos estudos realizados pela academia”? É curioso perceber uma reação tão virulenta a uma simples palestra. Não me recordo de biólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e médicos mobilizarem turbas para agredirem participantes de eventos nas Ciências Humanas…

É triste constatar que a Nossa Ciência prestou apenas o serviço-sujo de tripudiar daqueles que pensam diferente e que buscam respostas em um mundo onde as liberdades individuais, inclusive a de expressão, estão cada vez mais tolhidas. Nessa celeuma, a revista posiciona-se implicitamente ao lado da turba de vândalos, travestidos de docentes e alunos, que nos impeliram a retirar o evento da universidade para realizá-lo em local externo, por temer a integridade física da própria palestrante. As ameaças foram, inclusive, denunciadas ao MPF.

Também foi de se lamentar que várias unidades e indivíduos do quadro de nossa Instituição também colaboraram para o cerceamento do evento no próprio campus universitário. De acordo com o filósofo e político Benjamin Disraeli, a Universidade deveria ser um lugar de estudo, liberdade e luz. Pergunto-me o que será que está acontecendo em alguns setores da Academia?! A pergunta é retórica…

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