A educação e a cultura brasileira no fundo do precipício

Nos últimos três dias, o brasileiro foi aturdido com uma série de notícias nefastas que comprovam que a educação e a cultura nacional jazem no mais profundo precipício do ostracismo e insignificância. Trata-se de um lugar cansativo, monotemático e repleto de frivolidades, típico de uma república idiocrata.

Parte disso advém do fato de que 70% dos adolescentes e jovens do ensino médio exibem conteúdo insuficiente (eufemismo?) em português e matemática. 70%! São milhões de analfabetos funcionais que não conseguiriam interpretar um simples texto ou realizar as quatro operações básicas em matemática, o que inevitalmente refletir-se-á no mercado produtivo nas próximas décadas.

O interessante nesse levantamento foi constatar que mais da metade dos estados apresentou piora no desempenho dos alunos em pelo menos uma das avaliações realizadas, se comparado aos testes anteriores; e tal situação notadamente acometeu unidades federativas concentradas no Norte e Nordeste do país. Os estados mais pobres da união apresentaram piores indicadores educacionais. Ora, resta indagar se essa correlação seria causa ou consequência da premissa.

Engana-se quem acha que esse descalabro vem de hoje. Nos últimos programas internacionais de avaliação de alunos (PISA), o Brasil vem sistematicamente e progressivamente ocupando as piores posições em ciências, matemática e leitura. O quoficiente do brasileiro é um dos poucos no mundo que também vem apresentando uma redução!, como observado numa pesquisa que contou com 31 países de diversos níveis de desenvolvimento. Na verdade, seria muito mais prático perceber o quanto o brasileiro involuiu intelectualmente (incluindo este que humildemente vos escreve) ao conversar sobre amenidades culturais com cidadãos da “melhor idade” num simples boteco copo-sujo…

Com o perdão da analogia biomédica, a educação brasileira vivencia mesmo uma nítida morte cerebral, um ponto sem-retorno ou um retorno sem fim, sem que ao menos os auto-intitulados intelectuais responsáveis por vexatório quadro, sob as bençãos de seu patrono Paulo Freire, notifiquem a causa mortis e tentem salvaguardar as partes sãs para um futuro transplante. O máximo que os doutos e iluminados bradarão, confortavelmente instalados em seus escritórios profusamente adornados com livros sobre marxismo cultural e desconstrução da relação professor x aluno, certamente será uma suposta falta de recursos para educação; apesar de o Brasil investir uma parcela considerável de seu produto interno bruto (PIB) na área. Má-gestão, péssimo nível dos docentes, desigualdade de recursos entre ensino básico e superior, ementas de cunho doutrinário e excesso de politização em detrimento de ensino técnico?! Não… Isso não deve ser questionado, não mesmo… SHHHH!

A cultura sitiada

Como tudo que é ruim pode piorar ainda mais, uma MOAB (acrônimo de mother of all bombs) do descaso vitimou ontem, dia 2 mas que bem deveria se considerado o dia 11 de setembro para a história da ciência e cultura do país, o inestimável Museu Nacional, localizado na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, num incêndio de causas ainda não esclarecidas.

Se não bastasse a destruição do prédio onde foi assinada a independência do Brasil, seu acervo catalogado contendo 20 milhões de peças, o qual incluía preciosidades como a primeira edição do clássico “Os Lusíadas” (1572); “A Arte da Gramática da Língua Portuguesa”, de José de Anchieta (1595); o fóssil de “Luzia” que teria cerca de 12.000 anos; o documento de assinatura da Lei Áurea; fósseis preciosos de animais e plantas já extintos; documentos atemporais de outras civilizações e resquícios da história humana; tudo isso e mais foi incinerado pelo fogo, libertino e arredio num local onde sequer havia água nos hidrantes.

museu

Este texto não tem como finalidade responsabilizar autoridades e instituições, estruturas impessoais que estão umbilicalmente ligadas à tragédia. Aliás, muitos já vociferam impropérios no calor da brasa – que ainda arde no Rio – e o fazem com proselitismo político desavergonhado. A intenção aqui é apenas observar o que nós temos feito para engrandecer e louvar nossa história.

Este próprio escriba, hipocritamente, preteriu inúmeras vezes uma visita ao Museu Nacional nas oportunidades que esteve no RJ em prol de atividades menos edificantes, como “curtir uma praia”, e obviamente vai lamentar isso até o fim de sua vida. Que o incêndio no Museu Nacional torne-se um ponto de inflexão doloroso mas revigorante para todos.

Um Brasil que não conhece seu passado (glorioso ou discutível) fica à mercê de ter sua história reescrita por pusilânimes. Hoje somos um povo sem identidade, um arremedo de nação que conserva no imaginário uma esperança vã de dias melhores. Não mais reverenciamos heróis de nossa história como José Bonifácio, Pedro II, Barão de Mauá, Carlos Gomes, Duque de Caxias, Santos Dumont, Monteiro Lobato et ceteri. A alta cultura é tida como algo elitista, enquanto artistas e intelectuais vazios, materialistas e superficiais, que em nada contribuem com o engrandecimento deste país, são reconhecidos como modelo virtuoso pelo dócil e beócio povo brasileiro.

Haveria como mudar famigerada situação? Talvez. A principal mudança seria cada qual “arrumar sua casa” com muito estudo, dedicação, leitura e trabalho abnegado, para então (re)construirmos as belezas universalmente admiradas de outrora, como as que nossos antepassados erigiram.

Dr Bento J Abreu

Editor do site, professor, pesquisador e interessado em assuntos atuais

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