A barbárie da mutilação genital feminina

Uma das situações mais degradantes para a humanidade hoje, em pleno século XXI, certamente envolve a mutilação genital feminina, que vez por outra é noticiada pela grande imprensa sem que se tenha uma visão mais aprofundada sobre o assunto.

Também conhecida pelo eufemismo “circuncisão feminina”, a mutilação genital feminina acomete 130  milhões de pessoas, e ocorre em todas as partes do mundo, sendo mais prevalente em 28 países concentrados na África e Oriente Médio (Utz-Billing & Kentenich, 2008). Em Burkina Faso, por exemplo, estima-se que cerca de 75% das meninas e mulheres tenham sido mutiladas segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef); enquanto Somália, Guiné e Djibuti podem apresentar índices próximos a 90%!

A despeito de possuir certa bagagem cultural, a base de sustentação para tal prática em diversos países como Egito e Indonésia é a doutrinação islâmica. Na verdade, o tratado da lei islâmica preconiza a  ablação de órgãos genitais femininos com o intuito de reduzir a excitação sexual da mulher e, supostamente, diminuir o risco de relacionamentos extraconjugais. Outras motivações de ordem não-religiosa estão associadas ao controle de natalidade, simbologia de feminilidade e beleza, higiene e vantagens econômicas (Utz-Billing & Kentenich, 2008).

A Anatomia da Mutilação dos Órgãos Genitais Externos Femininos

O pudendo ou vulva engloba vários órgãos que tem como função propiciar a excitação sexual, participar da micção e/ou bloquear a entrada de corpos estranhos nas vias sexuais e urinárias.

No interior da rima do pudendo, delimitada pelos lábios maiores do pudendo, situam-se os lábios menores do pudendo. Estas pregas arredondadas circundam o vestíbulo da vagina e ajudam a formar o frênulo e o prepúcio do clitóris. O clitóris é um órgão extremamente sensível e erétil (intumesce-se com sangue durante excitação sexual) que se localiza anteriormente no pudendo, justamente no ponto de intercessão dos lábios menores. A glande e parte do corpo do clitóris são curtos (possuem cerca de 2 cm de comprimento e 1 cm de largura) e são visíveis no pudendo; ao passo que os ramos do clitóris encontram-se profundamente aos lábios do pudendo e se fixam nos ramos inferiores do púbis e períneo.

Outras estruturas eréteis da região, os bulbos do vestíbulo localizam-se profundamente à membrana do períneo, e lateralmente ao óstio da vagina, sendo revestidos ínferolateralmente pelos músculos bulboesponjosos, respectivamente.

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Parte do clitóris. Extraído de https://anatomia-papel-e-caneta.com/sistema-reprodutor/ em 24/09/2018.

Os procedimentos de mutilação genital feminina podem ser classificada em IV tipos cirúrgicos. No tipo I remove-se principalmente a pele que recobre o clitóris. No tipos II, o clitóris é removido assim como os lábios menores, parcialmente ou totalmente. O tipo III envolve ablação completa de clitóris, lábios menores e lábios maiores do pudendo. O orifício da vagina é selado e somente uma pequena abertura é deixada para saída de sangue menstrual. Existe ainda o tipo IV o qual envolve mutilações grosseiras como pinçamento ou raspagem das estruturas. Como se pode notar, glande e corpo do clitóris são geralmente removidos, mas as demais partes permanecem, com ou sem disfunção.

Frequentemente esse procedimento mutila crianças a partir de 5 anos de idade em países não-civilizados e ocorre de forma rudimentar, sem qualquer método de assepsia ou anestesia do local. Importante ressaltar que, em muitos casos, o local é suturado e a vítima é mantida com as pernas amarradas.

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Sutura pós-mutilação genital em mulher somali. Extraído de http://virusdaarte.net/somalia-a-ablacao-da-genitalia-feminina/ em 24/09/2018.

Algumas das complicações do procedimento relacionam-se ao sangramento, infecções da ferida, sepse, choque, alterações da micção e até fraturas! Problemas crônicas envolvem anemia, infecções do trato urinário, incontinência, dor, infertilidade, problemas menstruais e dispareunia (dor ou desconforto durante o ato sexual).

As mulheres tornam-se mais propensas à infecção por HIV, exibem dificuldades ginecológico-obstétricas e apresentam sérios transtornos na saúde mental. Destes destacam-se medo, inferioridade e supressão; com evidente aumento na frequência de pesadelos, doenças psicossomáticas e episódios de irritabilidade.

Apesar de não ser uma realidade no Brasil, a migração (islâmica ou não), notadamente na Europa e Estados Unidos, tem demonstrado o estado atual da mutilação genital afligida pelas mulheres em seus países de origem. Morrone et al (2002) recomendam um amplo programa de treinamento de profissionais e educação sobre sexualidade, mutilação genital feminina e reprodução em comunidades de imigrantes.

A mutilação genital feminina é uma condição extremamente degradante para a criança e a mulher e, mesmo executada por profissionais da saúde – na  denominada “medicalização da mutilação”, continua a ser algo inaceitável e deprimente. Apesar de não termos ainda leis aprovadas no Brasil, ordenamento jurídico que bane a mutilação genital feminina está presente em diversos países do mundo-livre como Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e na Europa África.

Dr Bento J Abreu

Editor do site, professor, pesquisador e interessado em assuntos atuais

 

Referências:

Utz-Billing I, Kentenich H.Female genital mutilation: an injury, physical and mental harm. J Psychosom Obstet Gynaecol. 2008 Dec;29(4):225-9.

Morrone A, Hercogova J, Lotti T. Stop female genital mutilation: appeal to the international dermatologic community. Int J Dermatol. 2002 May;41(5):253-63.

 

 

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