A decapitação por guilhotina e Dostoiévski: Uma breve história anatômica

No clássico “O Idiota”, de Fiódor Dostoiévski, um delicioso diálogo ocorre entre o Príncipe Míchkin e o criado do Sr. Epantchiná enquanto aquele aguarda ser atendido pelo discreto general. Durante sua espera, Míchkin divaga sobre as execuções por guilhotina na França, a qual se refere como uma “máquina poderosa que faz a cabeça dos sentenciados à morte pular fora antes que a pessoa pisque”! Após considerar toda a angústia e agonia do condenado, que certamente estaria a par de todo o desfecho com uma precisão matemática, o príncipe considera que, pelo menos, “não deve haver muito sofrimento quando a cabeça cai”. Mas como surgiu tão famigerado instrumento e o que ocorre com a cabeça pós-decapitação?

Desenvolvida e aprimorada em 1789 pelo Dr Joseph Ignace Guillotin, juntamente com o engenheiro Tobias Schmidt, a guilhotina prometia ser um passo intermediário até o completo banimento da pena capital. Se por um lado a guilhotina foi concebida durante a revolução francesa como um método “humanizado” e indolor de execução que substituiria o enforcamento, a bem da verdade é que cabeças rolando em praça pública para o deleite de toda a população não pode ser considerado algo muito edificante e “iluminado” para a jovem República Francesa de Robespierre et caterva. O fato é que milhares de vidas foram ceifadas de forma industrial utilizando-se tal instrumento e, tal horrendo método de execução só foi descontinuado em 1977, quando a a última cabeça pereceu pelas lâminas de uma guilhotina na cidade de Marseilles.

Interessantemente, acredita-se que o cérebro do indivíduo decapitado possa “sobreviver” por cerca de 13 segundos, bem menos que os parcos minutos relacionados ao método do enforcamento. As células cerebrais, privadas de oxigênio e nutrientes, morrem por necrose tal qual numa isquemia ou numa hemorragia cerebral. As respostas bioquímicas iniciam-se em poucos segundos e atingem um pico e se estabilizam em alguns minutos. Envolvem basicamente alterações nos níveis de metabólitos (lactato e creatina), e marcadores de oxidação como tiol e dissulfetos (Hackett et al., 2015).

Após a decapitação, tem início um processo de desintegração do organismo como um todo e as funções biológicas relacionadas ao cérebro cessam (Miller & Truog, 2010). No entanto, o organismo ainda apresenta sinais de vida, como qualquer sujeito que já presenciou o preparo de uma galinha para o almoço pudera observar. Mesmo sem a cabeça, a galinha ainda pode correr e mexer as asas por um um curto período de tempo, apesar da perda da função cortical. Mas um ser-vivo decapitado poderia sentir dor, mesmo que por pouco tempo?

Um recente trabalho pretendeu observar alterações eletroencefalográficas no cérebro de ratos anestesiados após a decapitação (Kongara et al., 2014). Sem aprofundar em questões metodológicas, o estudo corrobora a literatura vigente de que animais conscientes e despertos podem perceber a decapitação como um estímulo doloroso antes do surgimento da insensibilidade.

Assim, um tempo de 10-15 segundos ainda poderia ser suficiente para o pobre condenado demonstrar algum nível de consciência. Em 1879, na ocasião da execução de Monsieur Theotime Prunier, médicos resolveram buscar respostas pelo estado de consciência logo após a decapitação. Com a devida conivência do pobre infeliz, utilizaram métodos pouco usuais para despertar a atenção da “cabeça desprovida de corpo”: gritos nas orelhas, apertos nas bochechas, cutucões diversos, aplicação de amônia e nitrato de prata no nariz bem como cera quente nos olhos! No relato médico, foi registrado que a face exibiu um “olhar de espanto”…

Dr Bento João Abreu

Editor do site, professor, pesquisador e interessado em assuntos atuais

Referências:

Hackett MJ1, Britz CJ, Paterson PG, Nichol H, Pickering IJ, George GN.In situ biospectroscopic investigation of rapid ischemic and postmortem induced biochemical alterations in the rat brain. ACS Chem Neurosci. 2015 Feb 18;6(2):226-38. 

Kongara K, McIlhone AE, Kells NJ, Johnson CB. Electroencephalographic evaluation of decapitation of the anaesthetized rat. Lab Anim. 2014 Jan;48(1):15-9.

Miller FG1, Truog RD. Decapitation and the definition of death. J Med Ethics. 2010 Oct;36(10):632-4.

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