A máscara mortuária e o Inferno de Dante Alighieri

Bento J Abreu

Na concepção da teologia cristã o inferno existe, embora não tenha sido criado por Deus. Se na Bíblia alguns termos são utilizados para se referir ao local – “tormento, ranger de dentes, escuridão, vergonha, tristeza e revolta” – sua representação foi desenvolvida no período medieval pelo poeta Dante Alighieri a partir de “A Divina Comédia”.

Em sua obra, dividida em três volumes, o poeta romano Virgílio guia Dante inicialmente pelos nove círculos concêntricos de sofrimento localizados no centro da terra. Obviamente, o tema inspirou nosso imaginário, assim como as artes e a cultura contemporânea. No recente filme “Inferno”, baseado na obra de Dan Brown, a trama se desenvolve tendo como ponto crucial a máscara mortuária de Dante Alighieri, o que nos traz a este texto.

Após ter passado por longo exílio ao se indispor com a elite dominante florentina, Dante morreu de malária em 1320. Interessantemente, a máscara mortuária atribuída ao gênio italiano e que se encontra no Palácio Vecchio, em Florença, é provavelmente falsa. Acredita-se que tenha sido esculpida por Pietro e Tullio Lombardo em 1483 para adornar sua tumba em Ravena, Itália. Apesar disso, a máscara conserva enorme valor histórico e simbólico, e ainda é capaz de atiçar a curiosidade de muitos.

As máscaras mortuárias, ou simplesmente “máscaras da morte”, tiveram origem no Egito antigo, mas eram comumente utilizadas durante a Idade Média a fim de reverenciar a memória dos mortos ou usá-las como efígies em selos e moedas, por exemplo. Imagino que as pinturas nem sempre seriam fidedignas às feições do indivíduo, e sua elaboração consumiria muito tempo e recursos.

Tratava-se de moldes facilmente confeccionados a partir de cera ou gesso o qual era disposto na face do indivíduo recém-falecido, a fim de se evitar que as características faciais principais fossem preservadas. O responsável pelo procedimento, geralmente um médico, então passava graxa ou óleo nos pelos do morto a fim de facilitar a retirada das bandagens de gesso e não danificar os cabelos do cadáver. A seguir, as bandagens eram colocadas em camadas, sendo que as primeiras possibilitavam captar detalhes finos tais como rugas e imperfeições da pele. Após cerca de uma hora, a bandagem endurecia e era cuidadosamente removida. O molde então formava o “negativo do rosto” e poderia ser preenchido com cera ou bronze, por exemplo, como no caso da máscara de Napoleão Bonaparte.

O molde poderia ser melhor trabalhado a fim de excluir imperfeições do material utilizado. Não se trata de um procedimento árduo e meticuloso. Pelo contrário, existe inclusive um passo-a-passo que pode ser feito em laboratórios de Anatomia Humana e que envolve, principalmente, gesso e alginato, além de deixar pérveas as narinas de seu colega (com um canudinho) para que possa respirar, é claro!

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