Uma breve visão sobre o isolamento social e o comportamento humano

Igor Richardson Nascimento de Souza¹

¹Acadêmico em Fisioterapia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e monitor do Programa de Monitoria da área V.

Diante da situação alarmante que se avizanhava devido à contaminação por covid-19, no dia 11/03/2020, a organização mundial da saúde (OMS) declarou que a situação chegara ao estágio de pandemia. Nesta, a principal diretriz, dentre as várias que deveriam ser seguidas para conter o avanço da doença, seria o “isolamento social”. Este poderia advir de várias formas – quarentena, lockdown, isolamento voluntário com recomendações sanitárias etc.

Apesar de ser uma medida que tem sido defendida por governos e alguns órgãos relacionados à saúde espalhados pelo mundo, sabidamente acarreta impactos diversos sobre a mente humana, possivelmente atuando em mecanismos neurais e alterando o comportamento humano no âmbito das suas relações sociais e individuais.

Para discutir as repercussões do isolamento social no comportamento é necessário fazer uma breve distinção entre solidão e solitude. Imagine que um maratonista treinando para uma corrida, alguém escrevendo um livro no silêncio ou um pianista praticando por horas e horas, são exemplos de solitude. Em outras palavras, há certo prazer em aproveitar momentos consigo mesmo através do autoconhecimento, por exemplo. Já a solidão envolve um aspecto negativo, e envolve a sensação de estar só mesmo com pessoas ao redor, o que traz diversos problemas para saúde.

É fácil reconhecer que o ser humano é um ser individualista, egocêntrico (ego do latim, significa “eu”), dotado de um perfil próprio, com aspirações e ambições exclusivas; portanto somos centrados em nós mesmos e queremos ser entendidos e ouvidos pelos demais. Assim, quando miramos o mundo social, é possível perceber pessoas independentes que estão ocupadas com seus próprios afazeres. Na vida adulta geralmente conquista-se certa autonomia. Apesar disso e excluindo condições como a preferência pela solidão ou timidez, o homem parte de uma espécie extremamente sociável: diante de sua fragilidade, bebês ou crianças necessitam do suporte de outros indivíduos para que cuidem de suas necessidades, ações essenciais para o desenvolvimento e manutenção da espécie. Se estamos aqui hoje, em parte isso ocorre, pois nossos ancestrais desenvolveram a vantagem evolutiva da comunicação, da cooperação e trabalho em grupo, para juntos obter vantagens e lidar contra predadores e inimigos. É certo que nossa sobrevivência depende do homem enquanto ser social, não de uma mentalidade individual.

Muito do que é acionado em nosso cérebro no isolamento social é consciente. Temos circuitos cerebrais destinados à ter empatia por outras (em condições normais, psicopatas, por exemplo, possuem déficit nos  circuitos cerebrais relacionados à empatia), ao passo que quando uma pessoa se sente isolada, há um desejo de se conectar com amigo, familiares ou outras pessoas novamente, há uma ativação dos circuitos de recompensa. Entretanto, a parte inconsciente dessas ativações acionam mecanismo neurobiológicos que podem prejudicar a saúde e levar à morte precoce.

Alguns estudos demonstram que a solidão é um dos principais fatores de risco para uma mortalidade prematura (45%), sobrepujando inclusive outros fatores como poluição do ar (5%), obesidade (20%) e alcoolismo (30%), possivelmente por aumentar sintomas como depressão e transtornos de ansiedade, entre outros. Na verdade, estudos com adolescentes demonstram que a preferência pela solidão está associada à maior ansiedade / depressão, desregulação emocional e baixa autoestima. Assim, não é de se estranhar que, durante a presente pandemia, alguns estudos têm previsto um aumento substancial no número de suicídios, seja devido aos impactos socioeconômicos ou devido a fatores associados como medo, pânico, estresse – que sabidamente deterioram a saúde mental do indivíduo.

No âmbito da ansiedade, um estudo mostrou que a mera presença física de outra pessoa, mesmo que desconhecida e que de nenhuma forma interaja, promove a diminuição dos sintomas do transtornos de ansiedade e do medo, mostrando a como o isolamento pode afetar o comportamento, trazendo malefícios a saúde. Além disso, outro estudo publicado na revista científica The Lancet, aponta que o risco de jovens desenvolver sintomas depressivos no futuro está relacionado com a quantidade de tempo que eles permanecem parados, fato que o isolamento proporciona.

Existem mecanismos neurais que nos impelem a agir – são estímulos que podem desencadear um processo emocional específico. Podem surgir por meio de modalidades sensoriais, assim como através da memória; e permite-nos agir de a fim de assegurar a sobrevivência, vide a sede que nos alerta acerca da desidratação, a fome que asseguraria novo aporte de nutrientes para o corpo bem como o próprio alerta doloroso em diversas condições patológicas. De maneira semelhante, existe mecanismos neurais que impedem a solidão, e quando são ativados, o cérebro pode nos motivar a relacionarmo-nos com outras pessoas. Obviamente, o tema é bastante complexo pois encontra-se numa interface envolvendo inclusive predileções e perfis pessoais. No entanto, sabe-se que o comportamento humano pode ser influenciado pela atividade cerebral, a qual é também regulada por dois mecanismos: a hereditariedade e o ambiente. Cada indivíduo apresenta um DNA único que, mediante a expressão gênica, fornecerá uma característica exclusiva ao nosso “cérebro”. Cada qual também vive em ambientes diferentes, o que possibilita experiências individuais. Isso certamente nos possibilita percebermos a grande variedade de comportamentos que existe na sociedade. Contudo o ex-professor da Universidade de Chicago, John Cacioppo, cita três maneiras de se lidar com a solidão de forma não-voluntária: A primeira é perceber sua própria solidão e não negá-la; a segunda é entender o que a solidão faz com seu corpo, pensamentos e comportamentos e, finalmente, dar uma resposta à solidão, reagir e entender que o que verdadeiramente importa é a qualidade das suas relações.

Referências

  • Social: Why Our Brains Are Wired to Connect. John Cacioppo.
  • L. Tomova, K.Wang, T. Thompson, G. Matthwes, A. Takahashi, K. Tye, R. Saxe. (2020). The need to connect: Acute social isolation causes neural craving responses similar to hunger.
  • Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., & Layton, B. (21). Social relationships and mortality risk: A meta-
    analytic review. PLoS Medicine, 7(7): e1316. doi:1.1371/journal.pmed.1316
  • MACHADO, Angelo B.M.; HAERTEL, Lúcia Machado.  Neuroanatomia funcional. 3.ed. São Paulo: Atheneu, 2006.
  • KANDEL, E.R.; SCHWARTZ, J.H.; JESSELL, T.M. Princípios da Neurociência. São Paulo: Manole, 2003. KÖCHE, J.C.
  • Wang JM, Rubin KH, Laursen B, Booth-LaForce C, Rose-Krasnor L.Preference-for-solitude and adjustment difficulties in early and late adolescence. J Clin Child Adolesc Psychol. 2013;42(6):834-42.
  • Qi Y, Herrmann MJ, Bell L, et al. The mere physical presence of another person reduces human autonomic responses to aversive sounds. Proc Biol Sci. 2020;287(1919):20192241. doi:10.1098/rspb.2019.2241
  • https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(20)30034-1/fulltext

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