Neuroanatomia do Comportamento Motor

   Cada ser humano possui um comportamento próprio. Existem semelhanças nas questões básicas, como a busca pela sobrevivência, pela alimentação, pela segurança, por um parceiro sexual, entretanto, cada ser responde de seu próprio modo às adversidades. É pensando nisso que se entende como cada pessoa pode responder diferentemente ao ser assaltado, uns reagem, outros desmaiam e outros se mantém tranquilos até o final. A complexidade da mente humana é tamanha e as individualidades são um ponto chave para o desenvolvimento cognitivo e social do homem na atualidade.

   O comportamento motor pode ser definido como a área que estuda o movimento humano, observando como ele é produzido e controlado, além das suas alterações ao longo da vida. Dentro dele, existem três grandes vertentes: a aprendizagem motora, o controle motor e o desenvolvimento motor. A aprendizagem motora está vinculada à forma como as habilidades motoras são adquiridas e aos seus fatores influenciadores, já o comportamento motor refere-se às mudanças no comportamento motor durante o ciclo de vida de uma pessoa, e por último, o controle motor é responsável pelos mecanismos que envolvem a produção e organização dos movimentos e como o Sistema Nervoso (SN) atua sobre eles.

   Para que aja uma ação, é primeiramente necessário que seja recebido um estímulo. Então tudo começa quando uma sensação é captada pelos nossos receptores no corpo, essas sensações ligadas aos nossos sentidos (tato, visão, audição, gustação, olfação) e essas informações fundamentais são levadas para o nosso córtex cerebral onde serão processadas e entendidas, dando origem a percepção. Depois que essas informações são captadas e processadas, nosso cérebro entende os aspectos necessários e consegue gerar uma ação, fazendo um músculo contrair e criar um movimento. E com o passar das tentativas, com erros e acertos, começamos efetivamente o nosso processo de aprendizagem.

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Figura 1. Esquema de como um estímulo passa a ser voluntário

   O Sistema Nervoso atua nessa área de diversas formas. Ele é dividido em SN central e periférico. O central é formado pelo encéfalo e pela medula, já o periférico pelos nervos, gânglios e terminações nervosas. O encéfalo também se divide em cérebro, tronco encefálico e cerebelo.

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Figura 2. Organização anatômica do Sistema Nervoso

   A primeira estrutura do SN a participar é a medula. Ela é uma zona constante de troca de informações, sendo a principal via que leva as informações sensitivas ao córtex cerebral, como também, a principal via de comunicação das informações corticais com o Sistema Nervoso Periférico. Nela também há diversos circuitos de reflexos, importantes para geração do ato motor sem necessitar passar primeiramente pelas vias corticais, possibilitando a realização de gestos mais rápidos e importantes para sobrevivência. Em seguida, o Tronco Encefálico, formado por bulbo, ponte e mesencéfalo, aparece com funções semelhantes às da medula. Também é uma região por onde passam as vias sensitivas e motoras, além de ser o local onde estão 10 dos 12 pares dos nervos cranianos e possuir três importantíssimas estruturas para o controle motor: complexo olivar inferior, núcleo rubro e substância negra. O complexo olivar inferior é responsável pela aprendizagem motora; já o núcleo rubro do mesencéfalo é a origem do trato rubroespinal, uma via motora responsável pela motricidade da musculatura distal; já a substância negra, é rica em neurônios dopaminérgicos e age diretamente no circuito motor para geração de movimentos.

   Por sua vez, o cerebelo age de diversas formas, ele contribui para a aprendizagem motora por conexões com a oliva bulbar; atua na manutenção do equilíbrio; controla o tônus muscular; e age no refinamento e planejamento dos movimentos voluntários. Devido a suas conexões com o córtex cerebral, auxilia no planejamento motor e depois da ação ser definida, age na área motora primária para corrigir o movimento e torná-lo mais refinado.

   O Diencéfalo contribui para o comportamento motor especialmente pelas funções do tálamo, hipotálamo e subtálamo. O tálamo exige diversas conexões com o cérebro, cerebelo, núcleos da base e muitas outras regiões, retransmitindo e controlando diversos tipos de funções cognitivas e motoras; o hipotálamo influencia principalmente nos processos motivacionais, como comer, dormir beber e por ser uma estrutura importante do sistema límbico, atua também nos aspectos motivacionais do comportamento motor; por último, o subtálamo está conectado às vias motoras e importante para a geração de movimento.

   O telencéfalo age em diferentes formas para possibilitar o comportamento motor, seja nos aspectos cognitivos e pessoais, como na própria execução. Os núcleos da base funcionam como circuitos motores, controlando a entrada e saída das informações para as áreas corticais, são eles a ativar ou inibir algumas informações, para permitir ou não, um gesto motor. As áreas funcionais do córtex cerebral podem ser de projeção ou associação e eles estão vinculadas com as informações sensitivas e motoras que chegam ao cérebro. As áreas sensitivas primárias e secundárias percebem e processam respectivamente os estímulos sensitivos. Já as áreas de associação terciárias decidem se haverá ou não o gesto motor e mandam para a motora secundária para o planejamento e, por último, há ativação da área motora primária para ativar as vias descendentes e possibilitar a contração muscular e assim ter a ação desejada.

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Figura 3. Trajeto da informação sensitiva
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Figura 4. Trajeto da informação motora

 

   Com isso, depois de todo o planejamento e execução vinda do sistema nervoso central, o sistema nervoso periférico é acionado, sendo a cabeça inervada pelos 12 pares de nervos cranianos e a musculatura do restante do corpo, pelos 31 pares de nervos periféricos. Os nervos são os condutores dos estímulos nervosos para os músculos, eles que possibilitam a musculatura contrair ou relaxar de forma adequada, com a força, velocidade, precisão adequados e qualquer lesão em sua estrutura possibilita falha importante em todo o comportamento motor, pois por mais que se tenha um comando preciso, a execução se torna falha.

   O comportamento motor é muito diverso e complexo, depende de todo o sistema nervoso, utilizando de todas as suas regiões para compor gestos que vão se modificando cada vez mais, seja pelo avanço da idade, da prática ou até mesmo do próprio desenvolvimento do SN. Ele norteia a vida humana e confere características únicas a cada indivíduo, fazendo o comportamento motor único e insubstituível.

 

Trabalho apresentado pela monitora Ingrid Martins de França na Liga de Anatomia do departamento de Morfologia da UFRN em maio de 2018

 

MACHADO, A. B. M.; HAERTEL, L. M. Neuroanatomia funcional. 3.ed. São Paulo: Atheneu, 2006.

MARTINEZ, A. M. B.; ALLODI, S.; UZIEL, D. Neuroanatomia Essencial. 1 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

MENESES, M. S. Neuroanatomia aplicada. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011.

 

 

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