Ilustração Científica e a ciência – um olhar crítico

   Desde os primórdios do seu surgimento, os seres humanos compreenderam que o ambiente, seus elementos, e fenômenos naturais necessitavam de explicações, impacientando as primeiras civilizações a buscarem respostas de forma natural e observacional. Surgiam aí as bases de origem do que seria, no futuro, conhecido como “Ciência”, um fascínio pelo que os cercava, uma busca pela necessidade de repetir os fenômenos naturais e de tê-los sob seu controle. Nesse período pré-histórico a comunicação e fala ainda estava em processo inicial de desenvolvimento, e para expor suas intenções e registros da existência os primeiros humanos utilizava-se de pinturas e marcações em paredes que representassem os seus eventos cotidianos, ou momentos importantes relacionados à natureza, como o controle do fogo, desenvolvimento da roda a partir de rochas ou madeira, e da criação de ferramentas – o que é considerado historicamente como os primórdios da “arte”.

   Com o passar dos séculos a arte e a ciência apresentaram relações estreitas de companheirismo: desde a descoberta de novas espécies de plantas e animais, aos primeiros estudos anatômicos, era necessário o uso de uma ferramenta que “eternizasse” aquela informação, permitindo que estudantes e pesquisadores conseguissem ter acesso a esses dados independente do tempo que demorassem a entrar em contato com eles no futuro.

   Antes da invenção da fotografia em meados do século XIX, a ilustração era um dos poucos modos, senão o único, disponíveis para criar imagens que durassem de modo praticamente eterno, somente dependendo dos compostos e elementos utilizados, tipos de pincéis, qualidade da tinta, e o tipo de material onde estava sendo realizado o trabalho. Vários sistemas de classificação dos seres vivos necessitavam de ilustrações, publicações científicas não eram aceitas caso seus procedimentos não fossem bem descritos e ilustrados para que fossem repetidos posteriormente, e reuniões científicas eram retratadas de modo a ser recordado no futuro, como acontecia em aulas de anatomia no século XVII: era o auge do uso da arte dentro da ciência, uma era de ouro da ilustração.

Fig 1 - anatomia na antiguidade - SEC XVII

   Após a invenção e evolução da fotografia, celulares e máquinas digitais, é complicado para alguns cogitar que a ilustração ainda tenha espaço tanto no mercado profissional quanto na ciência, quando seria mais fácil, e simples, pressionar um simples botão em uma máquina digital ou aplicativo, e obter a imagem com qualidade praticamente similar ao observado ao vivo, em questão de segundos. Na ilustração tudo é mais complicado e dispendioso: uma simples imagem pode demorar horas para ficar pronta, enquanto imagens mais complexas necessitam de dias, ou mesmo semanas, para serem concluídas.

   Com isso, o que ainda gera um afinco pelos traços e cores de ilustrações dentro da ciência, numa época de dinamicidade científica, onde artigos e livros são publicados diariamente, e as informações perdem seu impacto mais rapidamente à medida que novos dados vão sendo apresentados? Uma única palavra pode explicar essa busca pelos traços ao invés da foto: detalhes.

FIG 4

   Independente da qualidade da câmera ou da resolução da imagem de uma foto é impossível expor detalhes específicos que uma estrutura, espécie ou peça anatômica apresenta, exceto quando mostrado em ilustração. Em fotos ou imagens, quanto maior o aumento (zoom) aplicado, mais um único ponto recebe a devida atenção e foco, borrando todas as estruturas que não estão no mesmo plano. A ilustração consegue superar essa dificuldade mesmo em grandes aumentos, apresentando áreas e elementos completamente em “foco” que nem mesmo o uso dos mais potentes equipamentos de fotografia conseguiria atingir, destacando apenas o que o pesquisador deseja mostrar, ou mesmo esquematizando estruturas de modo simplificado, mas ao mesmo tempo condizente com a realidade. O ilustrador científico é, assim, muito mais do que um mero repetidor do que ele vê, mas um observador paciente e atencioso com as características que, para muitos, pode passar de modo imperceptível.

FIG 5

   De modo distinto da ilustração “casual” ou “não-científica”, que utiliza parcialmente ou totalmente da imaginação do ilustrador para criar estruturas e ambientes com efeitos diversos e elementos reais, surreais ou irreais, a ilustração científica é menos aberta à imaginação. O ilustrador científico deve ser mais “pé-no-chão”, metódico, representando as estruturas do modo mais proporcional possível, muitas vezes utilizando escalas para representar o aumento daquela imagem em relação ao original.

   No geral uma ilustração científica também tem muito de ciência: é necessário ao profissional conhecer o que está representando. “Mas eu não trabalho com entomologia (insetos)!” – sem desculpas, é preciso ir à natureza e estudar em campo ou ver trabalhos anteriores de outros ilustradores, para ter uma base de como a área é representada nas ilustrações; “Não sei o que significa os termos da botânica nem o que focar em tal estrutura!” – conversar com o pesquisador que requisitou o trabalho é um passo extremamente importante para conhecer o seu objeto de desenho; “Não lembro/nunca estudei anatomia!” – os livros estão aí para ensinar. Não obrigatoriamente esses são os passos que devem ser seguidos para cada uma das áreas supracitadas, mas perguntas que podem ser direcionadas para todas elas e todas as demais possibilidades de área que possam aparecer na vida de um ilustrador científico. Não conhece ou nunca estudou tal objeto? Rascunhe, apresente ao solicitante do trabalho, estude nos livros, veja referências anteriores de outros ilustradores da área, converse. Pode parecer contraditório para uma atividade que demanda apenas de uma única pessoa para ser realizada, mas a conversa é o que torna a ilustração científica possível (exceto nos casos onde a ilustração é para uso próprio, em que todas as respostas você já tem/teve/terá com seus estudos).

   No início dos meus trabalhos com ilustrações científicas, em 2008, realizava mais ilustrações para atividades pessoais, apenas representando Fungos (cogumelos).

FIG 6

   Os desenhos botânicos vieram anos depois, em 2011, e os entomológicos apenas em 2015. A anatomia nunca havia sido minha área de ilustração, mas os trabalhos começaram a ser realizados em meados de 2017, após estudos e mais estudos em livros e atlas de anatomia, conversas com professores e observação de fotos e outras ilustrações da área. Para a anatomia o trabalho é menos similar aos entomológicos, que apresentam representantes mais intactos com o tempo; a anatomia tem leves dificuldades semelhantes aos trabalhos botânicos: é necessária a observação em diferentes fontes para compreender como a imagem deverá ser compilada; não poucas vezes é preciso completar, no desenho, partes de uma estrutura que foi quebrada, perdida ou rasgada, ou inserir cortes que não existem em uma peça, mas que foram feitas em outra para observar a estruturação interna (nesse exemplo, esse tipo de imagem seria impossível de obter utilizando apenas a fotografia, pois cada corte teria que ser milimetricamente realizado apenas para a observação de tal “forma”, correndo ainda o risco da peça não se posicionar como o artista gostaria que ela estivesse, tendo que ajustar incidência de luz, sombra e outros detalhes que podem prejudicar o foco no real objetivo da imagem).

FIG 7

Fig 8 jpeg

   Assim, na ilustração a sinceridade com a realidade é algo que fará o trabalho se tornar mais fiel ao que quer se representar, mesmo que isso custe muito do tempo do profissional, e é aí que mora o ponto crucial que causou a redução de trabalhos nesta área, que é o preço. Sejamos justos: ninguém adoraria desenhar uma única peça durante uma semana inteira, ao menos 3 horas por dia (o que uso para ilustrações em geral) e não receber nada, ou recebe apenas o valor que o solicitante gastaria em um “lanche” numa noite de sexta-feira. E isso não é raro, pois muitos solicitantes não aceitam pagar mais do que 50 ou 100 Reais por uma figura que demanda paciência e tempo, que durará mais anos que a própria vida de quem está solicitando ou mesmo desenhando, e que necessita de mais do que 15 horas de pesquisa e mais de 30 horas só de trabalho. É uma realidade cruel que reduz a empolgação dos que trabalham com essa área. Felizmente ainda existem pesquisadores que reconhecem a importância das ilustrações, suas vantagens para a ciência, e o quanto devem ser valorizadas.

   É verdade que os trabalhos com ilustração científica tiveram sua proporção reduzida, tanto nas buscas quando na quantidade de profissionais, que são cada vez mais raros devido o mercado pouco aprazível, mas ainda não é o fim da arte na ciência, e duvido muito que isso chegue a acontecer. Ilustrações manuais estão sendo substituídas por ilustrações digitais mais detalhadas e belas, porém tão trabalhosas quanto às antigas telas e pincéis, ou folhas de papel e nanquim. Os preços podem até ser elevados em um primeiro momento, comparado com trabalhos de fotografia, mas os objetivos são distintos, os detalhes são mais expressivos e a satisfação é notável, tanto para o pesquisador, quanto para o leitor do trabalho no futuro. Você vai realizar um trabalho científico e precisa de um ilustrador? Procure em artigos científicos da sua área de estudos: é provável que em alguma ilustração exista uma assinatura pequena, esquecida no canto, mas que revela o nome do artista que gastou parte do seu tempo para tornar aquela imagem possível, ou procure nos agradecimentos ao fim do trabalho. Se mesmo assim não encontrar, é provável que um dos autores seja o próprio ilustrador. Entre em contato, busque conhecer o seu trabalho, seja transparente com o que deseja ilustrar, e mais importante de tudo: seja justo com o valor que será proposto, ponderando o tempo que aquela pessoa gastará para realizar a tão esperada imagem. Façamos a ciência durar…

Dr. Rhudson Henrique Santos Ferreira da Cruz

Ilustrador Científico desde 2008, Biólogo, Doutor em Sistemática e Evolução, com formação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN

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