Andreas Vesalius – minibiografia

   No texto de hoje, abordarei sobre a obra de um dos maiores anatomistas da história moderna. Andreas Vesalius nasceu na cidade de Bruxelas, Bélgica no ano de 1514. Filho de médicos, o jovem foi aprendiz dos professores John Guinter e Jacob Sylvius, ambos da Universidade de Paris, mas terminou seus estudos em Pádua.

   Exerceu a atividade de explicator chirurgiae – um encarregado do ensino da anatomia e cirurgia – na Universidade de Pádua, no ano de 1534. Logo após, foi nomeado médico da corte por Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, também tendo exercido atividades para o rei Felipe II da Espanha.

   Vesalius era tido como um profissional meticuloso e dedicado que, a despeito de certa aversão contemporânea ao estudo com cadáveres humanos, praticava regularmente a dissecação de cadáveres, inclusive por meio de sessões públicas, a fim de incrementar seus conhecimentos acerca do corpo humano. Naquele tempo, as aulas envolviam a leitura de textos (geralmente uma edição mais recente de Mondino de’ Liuzzi – 1361 que carecia de ilustrações) enquanto um cirurgião iletrado apontava as estruturas citadas juntamente ao cadáver.

   De forma inversa, Vesalius seguia à risca o conceito de que você apenas conhece o corpo se dissecá-lo. Como está redigido no texto de Saunders & O’malley (1950): “ver um professor descer de sua cátedra acadêmica para dissecar e fazer demonstrações pessoais no cadáver era algo totalmente inusitado na época”…

Vesalius

   Nesse período, o conhecimento da Anatomia Humana era fortemente influenciado pelos erros e acertos de Galeno de Pérgamo, um notório médico, filósofo e anatomista grego do século II, mas que baseava seus conceitos meramente a partir da dissecação de animais. Após ter introduzido inovações no ensino da Anatomia, redigiu Tabulae anatomicae sex (Seis pranchas de anatomia, obra datada de 1538). Nesta obra, Andreas Vesalius começou a apontar algumas irregularidades e erros de Galeno. Na verdade, Andreas Vesalius já atuara como revisor de três textos anatômicos de Galeno para a Opera Galeni (Obras de Galeno, 1541),

   No entanto, foi seu clássico De Humani Corporis Fabrica (A estrutura do corpo humano) em 1543 que representou um marco na história da medicina e instituiu a chamada Anatomia Moderna. Importante, Vesalius tinha apenas 28 anos e dedicou o livro a Carlos V, tendo empregado o que havia de melhor na época para o desenvolvimento da obra. Seu livro continha pinturas anatômicas de várias partes do corpo e tipografia refinada, talvez fruto do esmero do período renascentista. Na verdade, excetuando-se as ilustrações de Leonardo da Vinci, nenhum outro livro de Anatomia apresentava tamanho esmero nas figuras e imagens sendo, portanto, tido como o melhor livro-conhecido da medicina ocidental. Interessantemente, Vesalius não deu crédito ao(s) ilustrador(es) da obra, o que rendeu grande debate acerca do tema e que talvez tenha sido estratégia para enfatizar sua própria inovação no ensino da Anatomia.

   Com cerca de 700 páginas, continha descrições extensas sobre ferramentas e técnicas de dissecação, assim como das estruturas humanas que poderiam ser reveladas pela dissecação dos cadáveres. Dividido em sete partes: I – Ossos, II- Músculos, III- Sistema circulatório, IV- Sistema nervoso, V- Abdômen, VI- Coração e VII- pulmões e Cérebro; De Humani Corporis Fabrica era baseado na observação direta e contumaz dos corpos dissecados, considerando-se o padrão, a objetividade e demais princípios científicos.

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   Devemos imaginar o quão difícil e ousado foi contestar os dogmas de Galeno. A obra gerou muita repercussão para os anatomistas contemporâneos e, sabidamente, despertou a inveja e desprezo de terceiros. Seu ex-professor Jacob Sylvius, por exemplo, escrevera carta ao imperador Carlos V sobre seu ex-pupilo com os seguintes trechos:

   “Imploro a Vossa Majestade Imperial que puna severamente, como ele merece, esse monstro nascido e criado em vossa própria casa, esse que é o pior exemplo de ignorância, ingratidão, arrogância e impiedade, a fim de eliminá-lo para que ele não envenene o resto da Europa com seu hálito pestilento.”

   Não satisfeito, Sylvius ainda criticou o método de ilustrar textos, algo inexistente na Grécia antiga já que, segundo seu entendimento, a figura poderia degradar a erudição textual:

   “Mas se, naquela mistura excessivamente confusa do caluniador, algo apropriado a ser lido é encontrado (pois nenhum escritor é completamente mau), isto é tão pequeno que pode ser acomodado em uma simples folha de papel, considerando que se descarte as ilustrações, as quais são cobertas por sombras e têm letras a elas fixadas. Todo método de empregar essas coisas é decididamente supersticioso e obscuro, e completamente sem uso, e sua Majestade deveria considerar as ilustrações e as letras mais como um impedimento do que uma ajuda”.

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   Saunders e O’Malley consideram o anatomista belga como o primeiro homem da ciência moderna, a despeito da Anatomia ser uma ciência majoritariamente descritiva. Em relação à sua grande contribuição para a ciência moderna, Vesalius escreveu:

“Nada mais útil podia eu fazer do que fornecer uma nova descrição da totalidade do corpo humano, cuja anatomia ninguém compreendia, uma vez que Galeno, apesar de seus extensos escritos, oferecia muito pouco sobre o assunto, e não vejo de que outra maneira eu poderia ter apresentado meus esforços aos alunos”.

   Vesalius faleceu em decorrência de um naufrágio próximo à ilha grega de Zakinthos em 1564, após uma peregrinação à Terra Santa. Entretanto, sua forma de abordar e ensinar a anatomia foi continuada por vários discípulos e sucessores ao longos dos anos…

Dr Bento J Abreu

Editor do site, professor, pesquisador e interessado em assuntos atuais.


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Referências:

FRIEDMAN, Meyer & FRIEDMAN, Gerald W. As dez maiores descobertas da Medicina, S.Paulo, Companhia das Letras, 2000.

KICKHÖFEL, Eduardo Henrique. A lição de anatomia de Andreas Vesalius e a ciência moderna.

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