O homem-vitruviano: arquitetura, anatomia e arte

O homem-vitruviano é uma obra clássica e célebre no meio acadêmico e para os amantes da Arte, porém o que a maioria desconhece é que essa obra estava esboçada há mais de 1500 anos antes de ser devidamente finalizada. Para entender sua origem, é necessário conhecer um pouco da história do arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio.

Quase tudo que sabemos sobre a vida de Vitruvius veio a partir de dados autobigráficos que ele mesmo cita no tratado De architectura. Outras informações são complementadas por outros escritores antigos que o citam em seus manuscritos. É provavel que ele tenha nascido por volta de 80-70 A.C. na cidade de Verona, pois há inscrições de um tal arquiteto Vitruvius no Arco de Gavos (figura 1), presente nesta cidade; e também é sabido da existência de famílias (gens) com este nome em Verona.

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Figura 1. Arco de Gavos – Verona

Os fatos conhecidos da carreira de Vitruvius são de que ele ocupara algum posto no exército de Júlio César e que, durante esse serviço militar, se encarregara da manutenção de máquinas de cerco e artilharia. Logo depois, ele servira nas tropas do sobrinho-neto de César, Otávio, mais tarde, o imperador Augusto.

De architectura (Figura 2) é o maior tratado sobre arquitetura legado pela antiguidade clássica e foi içado ao mundo por Leon Alberti, como se fosse um navio naufragado, em meados do século XV. Foi escrito em dez livros que seriam para nós hoje dez capítulos, mas como quem constrói um palácio: cada livro tem um átrio de entrada, onde ele recebe o leitor, contando-lhe uma história interessante ou fazendo um comentário refinado e culto, antes de levá-lo a um setor determinado, em que vai mostrar algo sobre palácios, templos, fortalezas.

O livro III se volta para os templos dedicados aos deuses imortais, ou seja, para a arquitetura sacra pública, mas começa falando de Sócrates, como o mais sábio dos homens, e de escultores famosos por suas obras para reis e pessoas de alto nível. Neste livro Vitruvius explica que o desenho dos templos depende da simetria, que se deve à proporção, à correspondência das medidas, assim como no homem há proporção entre as diversas partes do corpo.

Daí sua abordagem sobre a relação entre as proporções do corpo humano (Figuras 3 e 4), relacionando tais partes às obras arquitetônicas como segredo de sua construção. Como os romanos não conheciam o zero, ele adotara a opinião de matemáticos coevos, de que o seis seria o número perfeito, pois a partir dele seria possível formar todos os números: 1 = 1/6 de 6; 2 = 1/3 de 6; 3 = 1/2 de 6; 4 = 2/3 de 6; 5 = 5/6 de 6; 6 = 6/6, etc. Tendo mensurado muitos soldados, Vitruvius chega à conclusão de que a face do homem – do queixo ao topo da testa – a proporção indicada seria = 1/10 do corpo inteiro; do queixo até as narinas = 1/3 da face; das narinas até o meio das pestanas = 1/3 da face; da metade das pestanas até a raiz dos cabelos = 1/3 da face. Do pulso até a ponta do dedo médio = 1/10 do corpo inteiro; do queixo até o topo do crânio = 1/8 do corpo inteiro; da base do pescoço até a raiz do cabelo = 1/6 do corpo. O comprimento do pé seria para ele 1/6 da altura do homem, assim como o antebraço e o tórax seriam algo em torno de 1/4 da altura.

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Figura 3. Representação das proporções do Homem feitas por Vitruvius no século III a.C. Retirado de https://www.hs-augsburg.de/~harsch/Chronologia/Lsante01/Vitruvius/vit_ar03.html
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Figura 4. Representação das proporções do Homem feitas por Vitruvius no século III a.C. Retirado de https://www.hs-augsburg.de/~harsch/Chronologia/Lsante01/Vitruvius/vit_ar03.html

Diz-se que Vitruvius nunca conseguiu acertar as proporções corporais perfeitas em seus desenhos. Entretanto, séculos depois (por volta de 1490), Leonardo da Vinci desenhou à lápis e tinta sobre papel a obra que ficou conhecida como o Homem-vitruviano (Figura 5), basicamente uma junção de figuras elaboradas por Vitruvius. Para isso, dever-se-ia centrar o compasso na cicatriz umbilical do homem; enquanto os dedos dos pés e das mãos estendidos deveriam tocar a circunferência por ele descrita. A distância da planta do pé ao topo da cabeça deveria ser igual à distância dos braços estendidos. O princípio de construção do homem seria, portanto, geométrico e assim ele teria na matemática a sua essência explicativa.

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Figura 5. Homem-vitruviano de Da Vinci

Danilo Brito de Queiroz Cardoso

Acadêmico de Medicina (danillo.brito.14@gmail.com)

REFERÊNCIAS:

https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,homem-vitruviano-de-da-vinci-ganha-versao-em-3d,70001891724

http://www.ebad.info/vitruvius

http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Vitruvius/home.html

https://www.hs-augsburg.de/~harsch/Chronologia/Lsante01/Vitruvius/vit_ar03.html

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