Suicídio na universidade: entre a aspereza da ciência e a educação para o nada

No início de julho deste ano mais uma notícia de suicídio estudantil foi registrada no país. Desta vez, triste episódio envolveu uma aluna de medicina da UFMG. Casos de suicídio e depressão têm se tornado cada vez mais comuns no ambiente universitário e, com o intuito de se compreender o fenômeno de forma mais abrangente, resolvemos convidar um Professor de Filosofia para abordar tal temática.


Nos dias atuais vemos, com preocupação, o crescimento dos índices de suicídios nas diversas camadas sociais. Uma das camadas mais afetadas pela “onda de suicídios” é a juventude e, de forma mais forte, a juventude universitária. A humanidade sempre enfrentou indivíduos que praticaram o suicídio e até mesmo “ondas de suicídios”. Por exemplo, houve “ondas de suicídios” por ocasião da queda do império romano, da grande crise econômica que abalou a Europa no final do século XIV e também por ocasião da depressão econômica internacional na década de 1930. O suicídio é um problema. Um problema para a família que, muitas vezes, não compreende as razões que conduziram ao parente praticar o ato extremo e também um problema social, pois, como apresenta Émile Durkheim, grande quantidade de suicídios demonstram que a sociedade está doente, que algo está errado com o corpo social.

No entanto, parece que, no momento histórico atual, o problema é mais grave. A Organização Mundial da Saúde (OMS) deu o alerta que o suicídio é um dos grandes problemas da sociedade contemporânea e que, em algumas regiões do planeta, trata-se de uma epidemia social, uma doença.

O suicídio aparece de forma mais forte em cursos e setores da universidade, como, por exemplo, no curso de medicina. Talvez pelo fato de ser o ambiente universitário cercado de mitos (o mito que a universidade só traz coisas boas, da positividade encontrada dentro da universidade, etc), o suicídio de universitários e até mesmo o suicídio dentro dos espaços universitários é um assunto que precisa ser tratado de forma mais delicada.

Não existe uma “receita”, uma fórmula fechada que possa explicar o porquê jovens universitários, que teoricamente teriam um futuro promissor, tiram suas próprias vidas. No entanto, é necessário apresentar uma lista de cinco fatores que contribuem para esse fato acontecer.

  • Com a popularização da universidade – num primeiro nível, na década de 1950 nos EUA e na Europa e, num segundo nível, por exemplo, no Brasil na década de 1990 – passou a entrar nos espaços universitários um público cada vez maior. Dentro desse enorme – e, em muitos casos, democrático – público, existem grupos e indivíduos que necessitam, por razões diversas, de tratamento psicológicos e até mesmo psiquiátricos. São indivíduos portadores de síndromes, de doenças psicológicas e que, em muitos casos, não sabem que possuem esses transtornos. Com a pressão da vida universitária esses transtornos terminam vindo à tona e, uma das consequências, é o suicídio.
  • A vida universitária contemporânea termina induzindo a problemas psicossociais e, em casos graves, ao suicídio. A universidade contemporânea é um espaço de muita cobrança científica, até mesmo de produção no autêntico estilo fordista, de uma ciência áspera, distante do indivíduo e que pouco se importa com os sentimentos, sonhos e aspirações do indivíduo. Existem uma forte preocupação com o resultado da ciência, com a transmissão do saber e pouca centralidade no indivíduo que está sentado nas salas das universidades. Além disso, em muitos espaços universitários falta uma estrutura que possa atender estudantes com problemas psicossociais. Faltam médicos, psicólogos, terapeutas e até mesmo psiquiatras que possam, por meios e métodos diferentes, atender essa população que precisa de ajuda.
  • A sociedade contemporânea é profundamente materialista e cobra, de forma radical, dos jovens, incluindo a juventude universitária. Atualmente a expectativa é que um jovem que termine um curso superior, ganhe dinheiro, compre casa, carro e outros bens de consumo, viaje para o exterior e que tenha uma confortável vida de classe média. O problema é que será que a juventude universitária está preparada para toda essa cobrança material? A vida se resume apenas ao nível material? Não existem outros valores e projetos sociais que extrapolem o puro nível da conquista material?
  • Um outro problema grave e que termina contribuindo para o suicídio é o fato de vivermos numa sociedade de felicidades aparentes, uma felicidade que deve ser mostrada nas redes sociais. Nas redes sociais as pessoas são sempre felizes, sorridentes, sempre tiram as melhores fotos, nos melhores lugares. Alguém que esteja com algum tipo de tristeza ou problema psicossocial, ao ver tamanha felicidade, vai pensar que apenas ela é infeliz, que apenas ela tem algum tipo de transtorno psicossocial. Por incrível que parece a chamada “felicidade nas redes sociais” ou o “feliz das redes sociais” é uma forte contribuição para o suicídio.
  • No final da década de 1940 a ensaísta e poeta Raissa Maritain lança uma tese que, para época, causou perplexidade. Para ela uma das causas do espírito de desânimo da juventude, principalmente da juventude universitária, chegando ao nível do suicídio, são as teorias que são ensinadas no ambiente universitário. Raissa Maritain não está fazendo uma crítica radical ao saber ensinado nas universidades ou propondo algum tipo de modelo alternativo, onde só se ensine coisas alegres e doces. No entanto, ela demonstra que o saber ensinado nas universidades é essencialmente niilista. É um tipo de educação que, em última instância, apresenta a vida como algo sem sentido. Os jovens universitários aprendem, por exemplo, que Deus não existe ou que Deus morreu, que a família é uma instituição falida, que o casamento é uma prisão infeliz, que amizade e companheirismo são valores alienantes, que o amor é um sentimento ultrapassado, que práticas religiosas são, em sua essência, formas de alienação social. Vale salientar que no período entre as décadas de 1940 e 1950, onde Raissa Maritain produziu sua teoria, universidades nos EUA e na Europa vivenciaram uma “onda de suicídios”. Num ambiente – a universidade – onde estudantes aprendem teorias niilistas sobre a vida e a existência, onde se aprende que a vida não tem sentido, como evitar tantos suicídios no local?

Assim como não existe uma fórmula fechada que possa explicar o porquê de jovens universitários praticarem o suicídio, também não existe uma solução rápida para o problema. No entanto, a título de contribuir com a discussão, são apresentados quatro caminhos que, de forma conjunta, poderiam ajudar a enfrentar a epidemia de suicídios nos ambientes universitários.

  • É necessário que as universidades criem e, as que já possuem, reforcem seus grupos e centros de prevenção ao suicídio e a outros distúrbios psicossociais. É preciso que o tema do suicídio seja debatido nos espaços acadêmicos e que o aluno que, por qualquer razão, tenha propensão a cometer o ato extremo possa saber onde encontrar apoio social, ético, médico e, acima de tudo, humano. Esse apoio pode ser encontrado, por exemplo, nos serviços de psicologia, de assistência psicopedagógica e muito mais.
  • As universidades, dentro dos seus respectivos modelos de reforma curricular, precisam oferecer disciplinas e atividades curriculares (créditos extras, pontos em disciplinas, etc) onde os estudantes universitários possam brincar, interagir, rir, se divertir, contar seus problemas pessoais, suas dúvidas profissionais e outras “coisas” que estejam atormentando suas vidas. A universidade precisa ser, além de um espaço de ciência e saber, um espaço de alegria e diversão, de interação social, de construção de amizades e de companheirismo.
  • É preciso que as universidades, mesmo em cursos como a medicina, tenham disciplinas no campo das relações humanas e afetivas. Disciplinas que apresentem o lado ético da vida, que ajude aos universitários a criarem projetos de vida que não estejam alicerçados apenas em ganhar dinheiro, que não visem apenas a dimensão material da vida. São disciplinas no campo dos recursos humanos que deverão ajudar aos estudantes universitários a analisarem suas próprias vidas a partir do lado positivo da vida, que possam ver a beleza e a leveza da amizade, da arte, da religião e de tudo que compõem o universo humano.
  • É necessário que o saber seja ensinado. Não se pode negar ao estudante universitário o acesso a qualquer forma de saber e de conhecimento. No entanto, como demonstra Raissa Maritain, o saber produzido pela sociedade contemporânea é corrosivo, e chega às raias do suicídio. O motivo disso é que se trata de um saber niilista, que diz que nada tem sentido. Um estudante universitário exposto a esse tipo de saber, caso tenha problemas psicossociais, poderá se transformar num suicida. Diante disso, é necessário apresentar o lado bom da vida, o lado leve, poético e até mesmo místico da vida. A vida não é feita apenas de teorias materialistas, que dizem que nada faz sentido. A vida tem um lado cômico, doce e alegre. Esse outro lado, a universidade precisa apresentar a seus universitários.

amizade

Por fim, afirma-se que o suicídio já é um dos grandes problemas sociais enfrentados pela sociedade contemporânea. Um problema que entrou com força dentro das universidades. Na sociedade contemporânea o suicídio, como apresenta Émile Durkheim, é uma doença social. Uma doença que, de um lado, apresenta o lado sombrio, da crise existencial vivida pelo homem contemporâneo e, de outro lado, se não for combatido, poderá trazer fortes prejuízos econômicos e sociais. É dever do Estado e da sociedade civil tentar encontrar formas e modelos de convivência humana, de superação das crises humanas, que possam trazer um novo ânimo, um sentido a vida de milhares de jovens, dentro e fora das universidades, para que possam ser apenas felizes.

Dr. Ivanaldo Santos

Professor de Filosofia (UERN). E-mail: ivanaldosantos@yahoo.com.br

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