O ensino da Anatomia e as novas tecnologias

Infelizmente, a Anatomia é considerada por muitos como uma ciência sem progressos ou até uma disciplina praticamente morta. Porém, nos últimos anos vivencia-se uma revolução na ciência graças às novas metodologias e novas ferramentas de ensino.

Caso você pense que uma aula de Anatomia acontece como a imagem abaixo, se engana. O famoso quadro de Rembrandt – A Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp (figura 1) – que é muito popular principalmente entre os professores de Anatomia, foi pintado em 1632 e retrata a aula prática realizada através de uma autópsia. Como descreveu muito bem o Professor Bento Abreu no texto anterior, neste mesmo site; o cadáver advinha geralmente de um criminoso, e as dissecações eram públicas e só poderiam acontecer no inverno para que houvesse uma melhor conservação do corpo.

Além de todas as particularidades acima, as aulas demonstram claramente que existe um protagonista: o professor. O professor é retratado como detentor de todo o conhecimento, com uma posição hierárquica mais elevada. Os alunos são meros expectadores, e assim, aguardam passivamente que o saber lhes seja transmitido.

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Figura 1. Fonte: www.rembrandthuis.nl

Atualmente, novas metodologias fazem com que os processos de ensino-aprendizagem estejam focados no aluno. Existe uma inversão de papéis. O professor é um facilitador na aquisição de conhecimentos. A relação professor-aluno deixa de ser hierárquica e mitificada. Os tempos são outros, os alunos também. Mas como seria esse “novo” aluno? Como deve ser o “novo” professor, para tratar como “novo” aluno?

Nós professores somos majoritariamente de uma geração que foi conceituada como “Geração X”. Eram tempos em que o trabalho era considerado por muitos apenas uma obrigação para uma vida estável; teríamos total obediência para todos os que mereciam estar acima de nós na hierarquia (principalmente os pais); o tempo parecia passar em uma velocidade menor e as conversas eram realizadas pessoalmente. Somos da geração em que todo o conhecimento do mundo cabia na enciclopédia Barsa e aprendemos a lidar com a internet. E os nossos alunos? Ah! Quanta diferença ….

Nossos alunos são principalmente da “Geração Z” em diante. Possuem valores e aptidões muito diferentes das nossas. Não acreditam que o trabalho é uma obrigação. Para eles o trabalho só serve caso propicie satisfação. Nas relações, a hierarquia ocorre por legitimação. Só é líder, aquele que faz por merecer (claro que nós professores estamos incluídos nesta!). Para eles, tudo é rápido e imediato! Possuem muita informação mas nem sempre essas informações tornam-se conhecimento. E o mais impressionante é a relação com tecnologia. A Geração Z, por exemplo, considera a tecnologia uma extensão do ser. Não existem sem a tecnologia.

Com todas essas discrepâncias, os desafios são inegáveis. Nós professores estamos envelhecendo mas os alunos terão sempre a mesma faixa etária… Por isso, a capacitação e a aquisição de novas ferramentas para o ensino são ESSENCIAIS.

O processo ensino-aprendizagem é um sistema complexo baseado na interação entre alunos e professores. O “ensinar” e o “aprender” são processos que dependem de comportamentos complexos. Cada uma destas pontas têm suas particularidades. Paulo Freire, um dos maiores educadores do Brasil propõe a Educação da Libertação que se baseia na indissociabilidade da história de vida na formação de indivíduos, que ocorre por meio do diálogo e da relação entre alunos e professores. Ele enfatiza que tanto professores quanto alunos são transformados durante o processo da ação educativa e aprendem ao mesmo tempo em que ensinam.

Sendo assim, nós professores não podemos desdenhar da tecnologia pelo fato de que esta ferramenta faz parte da história de nossos alunos; mais do que isso, nossos alunos vivem a tecnologia.

Voltando para o ensino da Anatomia, todos nós sabemos que as instituições de Ensino possuem realidades contrastantes em seus laboratórios. Algumas utilizam manequins de plástico, outras usam cadáveres, porém, o uso da tecnologia pode agregar conhecimento, qualquer que seja o material utilizado no laboratório. Por quê?! Porque a tecnologia é a melhor maneira de conexão e, consequentemente, de comunicação com os alunos. É a linguagem com que eles têm afinidade.

Eu tenho em minha instituição uma realidade muito favorável. Tenho cadáveres e uma mesa 3D em meu laboratório para as aulas teórico-práticas. Sou defensora do uso de cadáveres. Não vejo o ensino da Anatomia sem as peças anatômicas. Porém, acredito que outras ferramentas agregam muito na aquisição de conhecimento (figura 2). A mesa digital é um complemento muito válido para o aprendizado da Anatomia porque possibilita a visão das estruturas anatômicas de forma mais dinâmica. Com a manipulação da mesa, uma estrutura que foi vista anteriormente no cadáver pode ressurgir em três dimensões e com movimento. Esta possibilidade permite uma visão muito mais completa e contextualizada das estruturas anatômicas.

Obviamente nem todas as instituições podem adquirir tais equipamentos. Infelizmente, o investimento para a compra de mesas digitais 3D ainda é muito alto. Mas é possível, por exemplo, “apimentar” as aulas com o uso de aplicativos no celular dos próprios alunos!

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Figura 2. Foto: Weber Sian /A Cidade – Centro Universitário Barão de Mauá- Ribeirão Preto (SP)

Alguns professores vêem o celular como um inimigo… Porém podemos fazer com que o celular seja uma ferramenta tecnológica para ajudar no processo ensino-aprendizagem.

Como podemos obter informações com facilidade e velocidade, dificilmente uma aula expositiva, teórica com horas de duração pode ser estimulante para os alunos. Aliás, é maçante, para ambas as partes.

Precisamos adequar a forma de ensinar ao nosso público ou então ficaremos eternamente reclamando que os alunos não têm interesse em aprender aquilo que temos a ensinar.

Aulas mais curtas, menos expositivas, mais participativas, contextualizadas, teórico-práticas, com casos clínicos, com tecnologia… existem muitas possibilidades. O interessante é podermos nos adaptar e ficarmos sempre atentos à realidade dos nossos alunos. O aprendizado depende da comunicação e esta só existe quando a linguagem é compreendida por todos!

Camila Albuquerque Melo de Carvalho, PhD

camila.melo@baraodemaua.br

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