Ciência e Religião: Razões de um falso conflito

Dr. Rodson Ricardo Souza do Nascimento

“Acredito no cristianismo como acredito que o sol se levanta, não apenas porque o vejo, mas porque por intermédio dele vejo tudo o mais” (C. S. Lewis)

Introdução

Pode um cristão ser cientista? A resposta é SIM. Existe realmente um conflito entre ciência e religião? A resposta é NÃO. Na verdade a incompatibilidade entre ciência e religião talvez seja um dos maiores mitos de nossa época. Neste texto procuro, de forma breve, analisar quais as origens desta situação.

Devoção pela ordem: amor pela verdade

Para que possamos entender as semelhanças e diferenças entre a ciência e a religião precisamos apelar para uma terceira opinião: a filosofia. O filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C) afirmava que uma das características do ser humano é a necessidade do conhecimento.

Ciência e religião são duas das mais antigas formas de conhecimento. Desde os tempos mais remotos, buscamos entender o que experimentamos; o que podemos experimentar e o que podemos ver, tocar ou imaginar. Ciência e religião sempre compartilharam este amor pelo conhecimento e pela verdade, pelo Ser.

Os historiadores chamam a atenção para uma verdade incômoda: o vínculo entre ciência e ateísmo é algo recente no Ocidente, e surgiu apenas no séc. XVIII. Na verdade a idéia que a ciência e a religião vivem em permanente estado de conflito se tornou muito popular apenas no final do século XIX, em grande parte por motivos sociológicos e políticos.

O fato é que as origens da ciência moderna são encontradas na tradição cristã medieval, na síntese entre o monoteísmo judaico e a filosofia grego-romana. Foi esse contexto único que possibilitou que, na Europa, e somente lá, emergisse o que hoje conhecemos como ciência moderna.

Quando Francis Bacon (1561-1626), reconhecido por muitos como o “pai da ciência moderna”, publicou seu Novum Organum (1620), estabelecendo as regras do método experimental e do empirismo, ele o fez por acreditar que Deus havia fornecido dois livros para o conhecimento da realidade – o Livro da Natureza e o Livro Sagrado – e, que, para ser instruída de maneira apropriada, a pessoa sábia deveria dedicar a mente ao estudo de ambos.

Para tristeza dos (neo) ateus, muitas das proeminentes personalidades da ciência concordavam com ele. Nomes como os de Galileu (1554-1642), Kepler (1571-1630), Pascal (1623-1662), Boyle (1627-1691), Newton (1642-1722), Faraday (1791-1867), Mendel (1822-1884), Pasteur (1822-1895), Kelvin (1824-1907), Maxwell (1831-1879), todos acreditavam em Deus e muitos eram, de fato, cristãos.

Recentemente podemos incluir na lista os criadores da física quântica Max Planck (1858-1947) e Werner Heisenberg (1901-1976), o geneticista do projeto Genoma Francis Collins e o matemático e físico John Polkingorne. Diferente do que afirma o preconceito comum acadêmico não comprovação alguma que a religião seja um impedimento ao exercício cientifico de alto nível.  Então de onde veio esta falsa crença? A pseudo incompatibilidade entre ciência da natureza e teologia vem da confusão que os ateus fazem entre ciência e cientificismo.

Ciência ou cientificismo

O termo ciência provém do latim Scientia que significa aprender ou conhecer. O conhecimento científico é o conjunto de conhecimentos sistematizados, adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, e formulados metódica e racionalmente.  Cada ciência especial lida com determinado “modelo” (mental, matemático ou experimental) de funcionamento da realidade.

A ciência é moral e metafisicamente neutra. A única crença que a ciência admite é que o universo possui uma ordem e que nós podemos descobrí-la. Adotam o que chamo de “naturalismo fraco”: aceita-se que existem verdades além da ciência e que as teorias científicas, embora importantes, são precárias e provisórias.

Já o cientificismo é a ideologia que acredita ser a ciência o único e definitivo paradigma da verdade e da racionalidade. Alguma coisa, proposição ou teoria só é verdadeira e ou racional, se, e somente se, ela for uma proposição científica fundamentada e testada de acordo com a metodologia científica. Tudo aquilo que não pode ser apropriado à investigação cientifica ou é falso ou irrelevante.

No cientificismo, a ciência deixa de ser uma iniciativa cognitiva para se tornar uma visão de mundo capaz de explicar todas as coisas, em todas as épocas, em todos os lugares. É papel do cientista lutar contra todas as formas “não científicas” de conhecimento, em especial, a religião e a teologia.

É essa a “ciência” propagada por Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennet e Cristopher Hitchens.  Estes intelectuais estão envolvidos em uma cruzada contra à religião. Para Richard Dawkins, por exemplo, “O papa do neoateísmo”, a biologia é uma arma ateia predeterminada a ser usada na guerra cultural e não uma ferramenta investigativa por meio da qual podemos adquirir um entendimento mais profundo do nosso mundo.

Esses autores afirmam que, de acordo com a biologia evolucionária, o processo evolucionário é indireto ou sem propósito, estão fazendo filosofia da ciência e não ciência empírica. Tais afirmações não são propriamente parte da própria teoria biológica, mas são um acréscimo filosófico, uma afirmação extra-científica. 

O filósofo analítico norte – americano Alvin Plantinga cita o eminente biólogo evolucionista alemão Ernst Mayr (1904-2005) em apoio a esta tese: “Quando se diz que a mutação ou variação é aleatória, a afirmação simplesmente significa que não há correlação entre a produção de novos genótipos e as necessidades adaptativas de um organismo em um determinado ambiente” (PLANTIGA, A. Ciência, religião e naturalismo: onde está o conflito? São Paulo: Vida nova, 2017, p. 11). 

A interpretação que o termo “aleatório” como sinônimo de “sem sentido” e, portanto, totalmente incompatível com a idéia de uma ação divina final no processo, não é evidente. O próprio Darwin, tanto na “Origem das espécies” (1859) quanto na “Descendência do Homem” (1871) não pensa que a seleção natural fosse, necessariamente incompatível com a idéia de um Plano divino.

Infelizmente os adeptos do cientificismo não se contentam com as conquistas das ciências naturais. Eles não se conformam que a biologia, a física e a química digam ALGO sobre a vida. Eles querem que estas ciências digam TUDO sobre ela. Eles pretendem forçar que a ciência lhes revele o sentido da vida, algo que está muito além de sua esfera de competência. A ciência não lida adequadamente com questões de sentido e valor: só podem lidar eficazmente com questões de fato.

Isto faz com que grandes cientistas tornem-se míopes. Um exemplo dessa miopia é oferecido pelo filósofo Cristopher Hitchens, que afirma que, desde a invenção do telescópio e do microscópio, a religião “não oferece mais explicação para nenhuma coisa importante”. Seguindo esta lógica simplista e tosca poderíamos também dizer que após o microondas podemos deixar de ler os poemas de Shakespeare, por exemplo.

Acontece que a frase de Hitchens, além de simplista é falsa. Um exemplo recente disso foi à importação de um conceito teológico pela física. O conceito de “epistemologia de Copenhague” foi desenvolvido pelo filósofo e teólogo cristão dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855) para explicar os paradoxos da compreensão cristã da dupla natureza (humana e divina) de Cristo. O físico dinamarquês Niers Bohr (1885-1962) usou o modelo mental de Kierkegaard para resolver um problema semelhante na teoria física de sua época: o comportamento da luz. A questão era que um mesmo fenômeno poderia “ser e não ser” ao mesmo tempo. Bohr denominou sua descoberta de “dualidade onda – partícula”.

O mais importante que precisa ser dito é que o fisicalismo é auto – refutável. Tomemos os casos do “problema da mente”, tema caro a Psicologia e a Neurociência. Se a nossa mente é apenas um ilusão criada pelo cérebro e tudo o que existe são átomos e elementos químicos reunidos pelo acaso não há como assegurar que pelo menos parte de nossas percepções e a própria razão (e, com elas, nossas teorias científicas) sejam confiáveis. Assim o cientificismo acaba por solapar as bases epistemológicas da própria ciência.

Considerações finais

Uma das razões porque as profecias iluministas sobre “a morte da religião” falharam (apesar dos horrores provocados pelas ideologias materialistas totalitárias do comunismo e do nazismo) é que há mais verdade no mundo que a ciência possa compreender. Buscamos sentido na vida, em vez de infindáveis fatos adicionais sobre como ela funciona. Necessitamos de matemática e química, mas também precisamos de poesia e beleza. Agostinho cantava Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! (Confissões 10, 27).

O teólogo e literato britânico C. S. Lewis (1898-1963), que como Agostinho também teve uma conversão tardia, afirmava que a experiência estética, única da nossa espécie, é a prova da transcendência intrínseca dos seres humanos: somos movidos pelo desejo, pela memória, pela beleza e pela saudade. Por isso onde a ciência para a fé vai além. A fé não vai de encontro a razão, mas vai ao seu encontro e vai além da razão e da evidência apontando para um sentido mais rico e profundo.

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