O Auto da Barca do Inferno: um clássico na formação do imaginário medieval

Alisson Matheus de Lima Santos[1]

INTRODUÇÃO

Por desplante de pesquisadores que falam do período medieval nodoando-o das mais fantasiosas histórias, e pejorativamente chamando-o de “idade das trevas”, há cada vez menos interesse em saber acerca das contribuições intelectuais a que foram dadas desenvolvimento nas mais variadas frentes do saber, ficando tal período da história humana soterrado sob os estigmas das crendices atribuídas a ele.  As contribuições desse período para a posteridade e seu aporte nas mais diversas áreas do conhecimento são absolutamente incalculáveis; basta, para título de exemplo, olhar as obras arquitetônicas da época e a suma teológica, de São Tomás de Aquino, para se observar que foi um dos mais profícuos períodos da história do Ocidente.

Visando redescobrir a formação do imaginário medieval, o presente texto teve como objetivo principal analisar as representações dos arquétipos construídos a partir da presença das personagens “diabo” e “fidalgo” e a sua contribuição na formação do imaginário medieval no clássico O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. É importante salientar que apesar de a peça não ser catalogada historicamente no período medieval, manifesta afortunadamente o pensamento medieval e os elementos necessários para a nossa investigação.  Para isso foi feita uma seleção de trechos da obra O Auto da Barca do Inferno para análise. A metodologia empregada neste trabalho foi de caráter bibliográfico, tornando-se demonstrável quando se apanha trechos da obra para construção do corpus e os analisamos. Os resultados desta pesquisa mostram a indispensabilidade dos clássicos para uma formação humanística e como a representação da moral religiosa medieval se apresenta na peça O Auto da Barca do Inferno. Com isso podemos ter uma visão mais abrangente desse período também fecundo para a arte literária.

O QUÊ DIZER DOS “CLÁSSICOS”?

Usamos “clássico” aqui como adjetivo para caracterizar aqueles livros que sobressaltam extraordinariamente em qualidade literária e formam a humanidade para a plenitude de suas potências; aquelas leituras que dizemos indispensáveis; que instalam o ser humano na realidade e lho permite observar os dramas humanos desde um conjunto e perceber as permanências e transitoriedades da vida humana, e mais facilmente ver o mundo em síntese.  Nesse sentido, um clássico é aquele livro que na famosa definição de Italo Calvino “nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.

Há no clássico uma representação simbólica das constantes universais dos dramas humanos que, apesar dos tempos e espaços díspares, repetem-se de novo e de novo, e o clássico da literatura permite ao seu leitor interpretar esses símbolos também em diferentes tempos e espaços de novo e de novo, atualizando e dando outros sentidos àqueles símbolos. Diz Italo Calvino (2007, p.12) “O clássico não necessariamente nos ensina algo que não sabíamos; às vezes descobrimos neles algo que sempre soubéramos (ou acreditávamos saber) mas desconhecíamos que ele o dissera primeiro (ou que de algum modo e liga a ele de maneira particular).”

Percebe-se assim que os clássicos da literatura universal atuam como uma espécie de dicionário das capacidades possíveis dos atos humanos em tais e quais situações simbolizadas, tendo acesso toda pessoa humana a tal dicionário pelos momentos de catarse em que cada leitor é o personagem(ns) daquele(s) drama(s), em tais e quais situações oferecidas pela obra.  

SOBRE A OBRA

O Auto da Barca do Inferno é uma obra da literatura portuguesa do século XV, cujo autor é Gil Vicente. Trata-se de uma produção artística da época do humanismo, no período da idade média e às vésperas do renascentismo (CLÉMENT, 2001). A obra é marcada pelo teocentrismo e antropocentrismo, pois se inscreve em um período transitório. Os “Autos” são peças em formas de poemas e tem um caráter moralizador/religioso como também humorístico (CLÉMENT, 2001). Em O Auto da Barca do Inferno, o destino das personagens é colocado em suas últimas e mais graves consequências, e os momentos em que em uma tragédia tradicional apresentaria toda sua “tragicidade”, O Auto da Barca do Inferno oferece também a ironia e o sarcasmo e com isso uma difícil definição acerca de seu gênero teatral. 

O Auto da Barca do Inferno conta a história do purgatório que é simbolizado por um porto onde os mortos da terra vão encontrar barcas que os levarão para o céu ou para o inferno. Por meio dessa alegoria, Gil Vicente faz duras críticas à sociedade daquele tempo usando personagens populares que compõe o elenco da peça; há por exemplo: “o sapateiro”, o “enforcado”, o “padre” e outros, e com isso pode-se notar o alcance social da obra que apresenta variadas classes sociais. 

O DIABO, O FIDALGO E AS CONSTRUÇÕES DE SENTIDOS

Diante de uma peça teatral o leitor/espectador que não tenha provido incremento imaginativo às cenas que se desenrolam, por natureza própria do gênero teatral, pode ficar sem ter a experiência catártica oferecida pela arte (MOISÉS, 1977). Nessa perspectiva, podemos sugerir que há uma (co)participação na construção dos sentidos por parte daqueles que apreciam a obra.

Nas palavras de Wunenburger (2007, p. 42):

A imaginação é primordialmente expressividade, e essa expressividade tem sua feição mais acabada na forma literária (…) cada imagem literária, fruto de uma criatividade verbal, se apresenta também como transbordamento imprevisível, uma renovação única das imagens preexistentes, cuja forma mais elevada é a metáfora mais pura.

Nesse sentido, podemos notar que O Auto da Barca do Inferno é um tipo de mostruário dos variados tipos humanos da sociedade popular e que apresenta uma peça com temas que revelam a hipocrisia de tantas pessoas de diferentes classes sociais. Nota-se que a maioria das personagens entram na barca do diabo, e há uma reprodução naqueles variados tipos de seres humanos do fio de conduta pessoal que os leva à mesma barca, do céu ou do inferno; ao mesmo tipo humano no modo de agir, exibindo o imaginário gerador saliente a cada trama. 

Sendo O Auto da Barca do Inferno caracterizado como “Auto” religioso/moralizador (CLÉMENT, 2001), pode-se sugerir que a peça Vicentina ressalta certos valores morais em detrimento de outros, e para isso prefigura em personagens populares a discriminação daqueles que vão para o inferno, e, por outro lado, dignidade daquelas personagens vão ao céu.

Quando o “diabo” encontra-se com o “fidalgo” e aquele diz que sua barca vai para o inferno, o fidalgo diz que seu próprio destino é outro, no momento em que o fidalgo insiste em negar e pede uma prova ao diabo, este lho responde: “(…)Do que vós vos contentastes.” (VICENTE, 1999). Posto isso, pode-se sugerir que a personagem “diabo” aparece como uma manifestação artística da justiça que, ao tentar embarcar o fidalgo na barca do inferno, pune-o pelo seu apego às coisas terrenas (“Do que vós vos contentaste”). E desse modo a peça exercita o imaginário popular cristão católico às verdades comumente acordadas pela sociedade majoritariamente cristã.     

A forte presença de sátira (CLÉMENT, 2001) na peça marca a presença de temas partilhados pela sociedade da época, de modo que os temas mais intocáveis para a moralidade social cristã, como o celibato do frade, são colocadas na obra sob a perspectiva da comunidade que pode assumir o posto de juiz dos tipos humanos que se representam no palco vicentino de O Auto da Barca do Inferno; e desse modo os espectadores podem julgar aquelas almas.  Junto ao diabo e ao anjo, o espectador pode agraciar ou condenar, à barca do céu ou à do inferno.

O IMAGINÁRIO VICENTINO

Segundo Wunenburger (2007, p. 10-11) o imaginário…

implica uma emancipação com referência a uma determinação literal de um conteúdo novo, defasagem que introduz a dimensão simbólica. Será possível distinguir o imaginário de uma categoria muito específica, o imaginal. (…) Conviremos, portanto, em denominar imaginário um conjunto de produções, mentais ou materializadas em obras, com base em imagens visíveis (quadro, desenho e fotografia) e linguísticas (metáfora, símbolo, relato), formando conjuntos coerentes e dinâmicos, referentes a uma função simbólica no sentido de um ajuste de sentidos próprios e figurados.

Nessa perspectiva, o imaginário pode ser entendido desde o prisma de um povo, de uma determinada cultura, civilização, e se pode estudar o imaginário aludido em uma obra artística como quem observa um arquétipo do comportamento, pensamento, cosmovisão e interpretação da vida religiosa, social etc., de um povo.

O Auto da Barca do Inferno, em suas variadas personagens, tais como o “sapateiro”, o “enforcado”, a “meretriz”, o “frade” e outros, mostra variados arquétipos, modelos sociais, tipos humanos. Com isso a obra vicentina alcança toda uma sociedade marcada pelo humanismo que priora pelos sentimentos íntimos de cada indivíduo (MOISÉS, 1960) e que Gil Vicente, nessa obra, traz ao palco por vezes desmascarando, como é o caso do “Fradre” que chega com sua amante ao purgatório e é recepcionado pelo Diabo, e termina entrando definitivamente na barca do diabo tendo como destino último o inferno. Assim, todo um conjunto de preconceitos em torno da figura do “Frade” como representante da moral cristã é colocado em questão; (diz o Diabo sobre a amante que traz o frade para o purgatório, e responde o frade:) “Dia. Fizestes bem, que é fermosa! E não vos punham lá grosa no vosso convento santo? Fra. E eles fazem outro tanto! Dia. Que cousa tão preciosa…” (VICENTE, 1999). A obra vicentina, de modo peculiar, coloca todas as personagens (arquétipos, tipos de vidas possíveis da sociedade) sob a mesma situação: a de estarem no purgatório e de seu destino (eterno) estar sendo decidido: para o céu ou para o inferno.

Desse modo, a obra encenada coloca toda uma sociedade no purgatório, e seus espectadores são convocados a dar uma resposta àquelas situações vividas pelas personagens, já que são figuras populares e partilham de um mesmo código de conduta moral regido pela fé cristã católica.

Nesse sentido, O Auto da Barca do Inferno guarda em si a força de moldar o imaginário medieval para a fé cristã católica quando julga merecedor do céu algumas personagens, que por sua vez, são uma reduzida minoria, mas dana para a barca do inferno outras personagens que feriram o código de ética católico cristão (WUNENBURGER, 2007). No julgamento, as personagens destinadas ao inferno são apresentadas como hipócritas diante do público, enquanto aqueles que são destinados ao céu aparecem como heróis e/ou verdadeiros merecedores do céu.

A dinâmica entre a barca que leva para o céu e a que leva para o inferno tem como eixo a moral católica que, explorando artisticamente Gil Vicente, faz sarcasmo daqueles que são destinados ao inferno e celebra a grandeza moral daqueles que são destinados ao paraíso. Nesse sentido, a obra vicentina resgata a figura do herói e lhe apresenta, não desde a perspectiva da epopeia, mas revestido da interpretação cristã da vida boa e honrosa (REIS; LOPES, 1998).

Desse modo, a ideia de um povo justo e digno do céu, representante da fidelidade e dos bons costumes, está direcionada naquelas personagens que vão ao céu; com isso, O Auto da Barca do Inferno diz qual sociedade é a melhor e o que ela deve fazer para ser feliz;com as consequências de não o fazê-lo.

CONCLUSÃO

A (re)leitura dos clássicos permite ao leitor maduro ou neófito o encontro com os dramas que direcionam vontades, repelem desejos e criam planos de ações dos mais variados tipos e inclinações através dos séculos. Pela via da alta arte literária, conhece-se o ser humano nas vidas humanas possíveis e compossíveis nas situações mais variadas e dinâmicas imaginadas e experienciáveis pelos leitores, experiência catártica que certamente anima a vida literária no leitor.

Em O Auto da Barca do Inferno, o chamado às virtudes cristãs reforçam o imaginário das felicidades e prejuízos eternos que aguardam aqueles que irão ao céu ou ao inferno. O uso das personagens populares e a ameaça de desnudação moral no purgatório diante do público chama cada espectador à experiência de colocar-se naquela(s) situação(ões) e ter de, na vida real depois da catarse, dar uma respostas aos dramas reais na sua própria vida tendo de lastro um imaginário que alude felicidades e prejuízos eternos.

Observamos que há nessa peça Vicentina elementos que contribuem para uma formação do imaginário cristão lastrado na moral católica e que os principais responsáveis por isto se deve à escolha das personagens que tipificam a sociedade que lhos assistam ao palco.

O céu e o inferno, destino último das personagens, funcionam como regras para a vida e assumem, em contexto de perspectiva de formação do imaginário, a medida última de todas as coisas; nesse mesmo sentido a peça Vicentina vai além de uma simples leitura de entretenimento, mas revela-se uma obra que coloca o seu leitor frente ao seu destino último, céu ou inferno.

REFERÊNCIAS

CALVINO, Italo. Por Que Ler Os Clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

CLÉMENT, Catherine. A Senhora: Gracia Nasi e a saga dos judeus e a saga dos judeus no século XVI. São Paulo: Ed.34, 2001.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa: através de textos. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1960.

WUNENBURGER, Jean-Jacques. O Imaginário. São Paulo: Loyola, 2007.

VICENTE, Gil. O Auto da Barca do Inferno. 4. ed. São Paulo: Cered, 1999. Francisco Achar.


[1] Aluno do curso de Letras – Língua Portuguesa e Suas Respectivas Literaturas na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN. Email: alizonmateu@outlook.com 

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