UMA ORAÇÃO POR UMA (BOA) HISTÓRIA!

Bento J Abreu

Este texto começou a ser escrito ao nono dia do mês de março de 2021. Seria uma data qualquer se não fosse o dia em que meu pai, um simpático senhor de 79 anos de idade, foi entubado e admitido num centro de terapia intensiva (CTI) após exibir, por mais de uma semana, sintomas da COVID19 que evoluíram para uma severa síndrome respiratória aguda. Para piorar, ele sofreu um infarto durante todo o procedimento. Sim, estimado leitor, foi uma madrugada difícil e angustiante, com muitas intercorrências e prantos.

No entanto, aqui não pretendo discutir sobre tratamento, doença, política ou epidemiologia. Também não intento em abordar a apreensão que consome toda a família, ou mesmo queixar-me das horas difíceis. Quero apenas prestar uma homenagem em vida ao meu genitor, que embora enfermo, acompanhei de perto nesse momento difícil e em tantos outros durante minha simplória vida e, oxalá possa ainda vê-lo com saúde novamente.

Muitos diriam que se acontecer o pior, é “vida que segue!”, “vamos olhar pra frente”… talvez não hesitamos em pensar assim mesmo. Trata-se de uma visão utópica de um futuro onde tudo se encaixará, livre de dor, tristeza ou mágoa. Ora, Gilbert Chesterton já dizia em O que há de errado com o mundo que “temos medo do passado”! Medo não só do mal que habita o passado, como também do bem e dos grandes feitos que estão nele. O autor ainda completa essa ideia: “São as gerações passadas, não as futuras, que vêm bater à nossa porta”. Afinal, a cruz que carregamos e as grandes batalhas do dia a dia exigem muita força, coragem e virtude; e nem sempre estamos aptos para tamanho desafio.

E é justamente baseando-me nas memórias do meu pai, bem como em seus feitos notáveis, que gostaria de espelhar-me para um futuro próximo. Tendo em vista toda essa apresentação, faço uma barganha contigo. Trocarei essa singela história por uma oração. Sim, apenas isso que peço. Reze por sua recuperação.

Bem, para contar a história de Bento João Quintiniano de Abreu, devo primeiramente falar sobre Goa. Imagino que não saiba onde fica… Trata-se de uma região situada na costa do Mar da Arábia, repleta de ilhas, que pertence à Índia mas que fora uma colônia portuguesa até 1961. Apesar de a história de Goa remontar há milênios e de ter envolvido batalhas históricas entre grandes impérios, a busca pela riqueza das especiarias desse importante ponto comercial fez com que os portugueses investissem esforços na sua colonização a partir de 1510. Portugal foi responsável por promover Goa como um centro missionário, a “Roma do Oriente”, de qual partiram nomes como São Francisco Xavier e São João de Brito, e erigiu uma impressionante infraestrutura composta por igrejas, liceus, escolas, institutos técnicos e, inclusive, uma escola médica. Os goeses mais antigos ainda falam português, além da língua oficial – o concani – e do próprio inglês. O turismo sempre foi uma peça chave para a economia local e devo recordar-lhe que, até nos dias atuais, apesar de se constituir como o menor Estado da Índia, Goa apresenta o maior PIB per capita daquele país.

Filho de Domingos e Apolônia, Bento, mais conhecido como Man John, tinha outros quatro irmãos – Luís, Caetano, Laura e Margarida, assim como vários sobrinhos – Christian, Natasha, Nadzha ,Tamara, Carla, Rico, Heini e Michelle . É interessante citar que os aniversários do Bento eram motivo de grande confusão. Como nascera no dia 13 de abril de 1941, mas somente o haviam registrado no dia 23 de abril (talvez pela dificuldade de transporte e das longas distâncias), nunca sabíamos quando ligar ou celebrar seu aniversário, mesmo porque não havia data contumaz para a comemoração!

Pelos relatos de familiares como o Tio Luís e Tia Jessie, pude obter mais histórias de sua intrépida juventude. Talvez a mais interessante seja a da “orelha furada”. Sim, Bento tem um orifício na concha da orelha direita (olha a Anatomia finalmente aqui!) que atribuía a um projétil atirado por imperícia de seu irmão Luís, enquanto caçavam perdizes na região. Foi bem mais tarde que descobri diretamente pelo Tio Luís, ultrajado pela “difamação” de que atirava mal, que tal furo na orelha se devera a um procedimento de sangria quando ficara adoentado durante a infância. A cartilagem não se cicatrizara e ele a disfarçava com uma massinha na cor da pele. Obviamente minha diversão era arrancá-la sempre que possível…

Na Índia ele pescava, caçava, estudava e também já foi coroinha.  Já com 20 anos, foi enviado para Coimbra a fim de estudar o ciclo básico de Engenharia na universidade local. Seus pais escolheram Coimbra em detrimento de Lisboa porque consideravam aquela cidade menos “devassa” que a capital portuguesa (SIC). Na verdade, os causos de Coimbra envolviam muitos estudos (ele sempre se destacou academicamente), como também muita diversão e bebedeiras. Coisas de jovem, como bem sabemos… Coisas que o levaram a se movimentar contra o então ditador português Antônio Salazar. E ao invadir um centro estudantil que havia sido fechado pelo governo, foi detido por 30 dias e passou a ser acompanhado semanalmente por um delegado. Como perdera sua bolsa de estudos e passou a ter grandes dificuldades para se sustentar em terras lusitanas, planejava deixar o país. Na verdade, este plano foi acelerado quando o governo decidiu que descendentes portugueses de territórios ultramarinos deveriam participar nas guerras de Angola ou Moçambique, um serviço militar obrigatório que teria a duração de 5 anos!

Bento e os capas pretas de Coimbra

Sinceramente não sei como conseguiu, mas a partir de um passaporte iraquiano falso, atravessou fronteiras e o departamento de imigração de diversos países europeus, tendo finalmente chegado à Alemanha. Ali havia recebido uma bolsa de estudos destinada a estudantes católicos na região da Baviera, mais especificamente em Munique, num país que ainda se reconstruía após a segunda grande guerra. Na cidade, participou de um período probatório para a continuação de sua bolsa de estudos na Politécnica de Munique. Nessa época, não tinha qualquer recurso dos pais, não falava alemão e literalmente trabalhava pela manhã para comer à noite. Talvez isso tenha promovido a regra que nós, filhos, sabíamos de cor: “nunca deixe nada sobrando no prato, pois muitos dariam tudo por essa oportunidade”. E ele era muito rígido quanto a isso. Lembro-me que uma vez ainda criança, ao frequentar um rodízio de carnes em Recife, comecei a chorar quando descobri que não conseguiria comer tudo o que o garçom havia colocado em meu prato.

Quando tive a oportunidade de visitar Munique há alguns anos, pude ouvir de seu grande amigo Vasco (hoje professor aposentado) e relembrar algumas histórias do “orelha furada”. Histórias de como trabalhou como zelador na jaula dos felinos, o local mais malcheiroso do zoológico; de como bebia cerveja porque era bem mais barata que água na Alemanha e de que chegou a morar na mesma residência universitária que abrigara Adolph Hitler décadas passadas. É também hilário imaginar a vez em que esses imigrantes indianos buscaram trabalho nos classificados e foram parar numa gravação… de um filme alemão, sobre a Alemanha e com personagens alemães. O diretor do filme, muito sem jeito, esforçara-se para explicar a temática do filme sem parecer indelicado para esses “figurantes de cor”.

Estudou muito, trabalhou mais ainda e formou-se em Engenharia. Após um breve período no Egito, a empresa em que trabalhava indagou despretensiosamente se algum funcionário por acaso saberia falar português. Eis que meu pai, um goês nato com sotaque lusitano, foi o único que levantou a mão e, assim, assumiu um cargo… no Brasil! Sim, vivíamos o milagre econômico brasileiro na década de 70 com o desenvolvimento das grandes obras de infraestrutura no país. Aqui, participou da construção da usina de Itaipu pela empresa Isomonte, cuja matriz ficava em Belo Horizonte.

Juntamente com outros alemães, aproveitaram muito a cidade. Desenvolveu até uma famigerada “gota” devido aos excessos gastronômicos e etílicos. Finalmente conheceu minha mãe, a Soninha, uma baiana de Brumado que viera para BH estudar; e que trabalhava como bancária e professora de História; e casaram-se em 1978. Se alguém realmente quisesse irritá-la, bastava cobrar um suposto dote que o Bento, como um legítimo indiano, deveria receber por desposá-la. Era claro que tal costume não se aplicava a um católico naturalizado português, mas seus amigos goeses não hesitavam em se divertir com tal situação. Casaram-se e tiveram dois filhos com uma idade certamente avançada para a época: este que lhes fala também atende pelo nome de Bento João (ou Bento filho) e o mais novo foi batizado como Luís Francisco.

Bento e Sônia

À pedido de minha avó paterna, todos os netos tiveram adicionado aos nomes o termo “da Graça”, em referência à Nossa Senhora da Graça, igreja jesuíta construída em 1551 na ilha de Chorão, em Goa. Até hoje nunca entendi o porquê de ele gostar tanto da Pampulha, talvez pela lagoa relembrar-lhe à infância em sua terra natal. No entanto, não frequentava o Iate Tênis Clube, não andava ou pedalava na orla e sequer frequentava o Mineirão. Mas nessa região bem mais pacata e arborizada se estabeleceu e nunca mais saiu.

Man John tinha defeitos também, era sistemático e muito teimoso, mas aqui não devo e não quero abordá-los. Vou continuar me lembrando de suas inúmeras qualidades e de coisas que não entendia na época, mas que hoje compreendo muito bem, mesmo por agora ser pai.  Na adolescência eu somente tinha um tênis que usava para jogar bola e, após uma rápida limpeza para tirar a terra vermelha do campão de futebol, o usava para sair à noite. Bem diferente dos nossos tempos em que um tênis equivale a um salário mínimo e um celular tem o preço de um carro usado. Por outro lado, eu estudava num dos melhores colégios da cidade – Colégio Loyola – que se localizava muito distante de minha casa. Se não tinha roupas de marca, muitos brinquedos e luxo; fazia inglês, judô, e natação… Nada faltava e vivíamos de forma contida e humilde.

Meu pai é uma pessoa muito boa, muito brincalhão e de riso fácil, que gostava muito de frutos do mar, comida picante e adorava contar suas histórias para desconhecidos. Guardava seu tesouro no freezer: uma porção de camarão que, todos os dias, descongelava e preparava na forma de um “xacuti picante”.

Nesses últimos meses andava certamente mais desanimado e cansado; mas ao telefone já dizia que deixara tudo planejado para seu ato final – sepultamento e cova já estariam até quitados.

Bem… Neste pequeno texto tento reverberar sua trajetória que ainda não findou.

Bento, Sônia e netos

Tenho certeza que mais histórias ainda estão por vir. Se você, caro leitor e agora amigo e confidente, chegou até aqui, reze por ele. Reze por nós. Reze por todos que precisam retornar às suas famílias após essa e outras doenças terríveis. E se acontecer o pior, mesmo após toda a angústia que nossa e tantas outras famílias vivenciam, que o meu pai saiba que o amo muito e que certamente ainda ei de abraçá-lo forte mais uma vez…


ATUALIZAÇÃO: Hoje, dia 26 de março de 2021, às 16:40 hs e após 18 longos dias internados no CTI, o meu amado pai deixou esse mundo e foi alegrar a morada de Deus. Lá poderá reencontrar seus pais, irmãos e tantos outros amigos que também já partiram. Fico contente pois pude estar presente em seus últimos suspiros e rezado por sua generosa e doce alma. Obrigado por tudo pai! Em breve, se Deus quiser, nos veremos de novo…

36 comments

  1. Que história linda e que orgulho desse pai por ter um filho tão inteligente e boa praça igual a vc Bento!!!
    Estou em constante oração pelo seu pai!!!
    Ele irá sair dessa!!!🙌🏻🙌🏻🙌🏻🙌🏻

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  2. Saudades do meu amigo Bento Abreu…
    Fomos contemporâneos por 18 anos e trabalhamos juntos em vários projetos na Demag, Vespasiano.
    Por várias vezes dava-lhe carona após o serviço e aproveitava para beber uma cerveja na sua casa próxima ao Mineirão, onde conheci a Sônia e os meninos que naquela época ainda eram muito pequenos.
    Tenho muito orgulho por tudo.
    Gente da melhor qualidade técnica e um excelente ser humano.

    Que Deus o receba em bom lugar.

    Registro aqui os meus sinceros sentimentos a sua família e amigos.

    Forte abraço a todos.
    Eustaquio – Taco
    Saúde e paz !

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  3. Caro Bento,
    deixo um grande e saudoso abraço para você, seu irmão e Sônia. Seu pai foi muito querido pela alegria e amizade que sempre demonstrou para com todos nós. Que Deus os conforte nesse momento difícil. Seu pai está fazendo uma festa no céu, como sempre fêz. Meu pai, que está com alzheimer e já se esqueceu de muitas pessoas, não se esqueceu de seu pai e relembrou das boas risadas que deram juntos. Seu pai foi uma pessoa maravilhosa! Fiquem com Deus.

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  4. Linda história, conheci o Bento é a Soninha na Paróquia Nossa senhora da Divina Providência, e tenho certeza que Bento está contemplando a Face de Jesus.
    Meus sentimentos a toda família.

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  5. Boa noite Bento Filho meu nome é Lameu colega por muitos anos de Demag do seu pai. Recebi também de um ex colega a notícia e este texto que repassei aos meus contatos ex Demag Recebi de volta de vários deles com o comentário de “Lindo texto, maravilhoso, bem escrito e emocionante” que foi também o que me expressei LINDO e me emocionou bastante, ao mesmo tempo que me trouxeram ótimas recordações do seu pai. Receba vc e sua família meus sentimentos acompanhado de um forte abraço A Lúcia Casaverde também ex colega Demag, me pediu o telefone da sua mãe que peço enviar no meu e-mail lclameu@yahoo.com.Nr

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  6. Saudações Bento, sou amiga da Sônia, trabalhamos juntas no movimento Mãe Rainha. Conheci seu pai, uma pessoa admirável, ouvi algumas de suas maravilhosas histórias. Traz paz ao coração pensar que Deus o chamou para junto de Si, o Bom Jardineiro que colhe as mais belas flores. Meus sentimentos, Deus dê à Sonia, a você e a família o consolo.

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  7. Boa tarde ,Bento Filho,sou Catherine amiga dos seus pais via Movimento Mãe Peregrina há muitos anos e quero te parabenizar por esta linda homenagem ao seu pai! Parecia uma leitura da biografia de uma pessoa famosa de tão bem escrita , tão interessante e verdadeira.
    Deus te abençoe e abençoe sua mãe e toda a sua família.
    Que a alma do Sr.Bento descanse em paz!

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  8. Bento, sou o Estevao, filho da Maria do Carmo e Amintas, velhos amigos dos seus pais, na Pampulha. Lembro-me muito dele, de quem fui médico por alguns anos. Há um bom tempo não os via. Gosto muito de seus pais e tinha um grande apreço por ele. Pessoa ímpar e muito agradável. Todos ficamos muito tristes com a notícia e rezamos por ele e vocês. Um fraterno e solidário abraço.

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  9. Bom dia, Bento, volto à sua página para lhe dar uma sugestão, que na verdade é um pedido. Você escreve tão bem, porque não transforma em um livro todas aquelas maravilhosas experiências de vida que o sr. Bento sabia contar tão bem? Uma biografia, ou mesmo um romance baseado em fatos reais, seria um bela forma de não deixar se perder a memória de uma vida tão rica. Um abraço.

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  10. Bento, somos Amintas e Maria do Carmo, da turma do Padre França com seus pais. Acompanhamos a familia, desde então. Sabemos de você, do Luis Francisco, estudos, casamentos e filhos, os tão queridos netos de Sônia e Bento. O rosto dele se iluminava, quando nos falava deles e de vocês. Estamos bem afastados desde nossa mudança para o bairro Ouro Preto. Afastados, porém o bem querer é o mesmo. Soubemos do falecimento apenas um dia antes da missa de 7o dia, a que assistimos e rezamos por todos. Vamos continuar tentando falar com Sônia. Sua história vale por muitas orações. Continuaremos rezando pela família.

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  11. Bento,
    Me chamo Cristianna e sou filha do Maurício e da Dôra, do círculo do ECC dos seus pais.
    O Bento e a Sônia sempre foram muito queridos e essa triste notícia me pegou de surpresa.
    Recebam o nosso abraço carinhoso e que os exemplos deixados por seu pai sejam sempre luz para os seus passos.

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